a verdadeira acidez das coisas

falava de coisas ácidas
às formigas que se passeavam pelo pátio

dizia que não comia morangos
porque me magoavam a língua
que não bebia a limonada da avó
porque me irritava a garganta
que não fazia mil e uma merdas
porque me feriam
os olhos
a boca
a cabeça
a pila
o coração

agora
que já como morangos
e bebo limonada
e faço mil e uma merdas
guardo caixas
bem escondidas no meu armário
para as quais me custa olhar
por não as conseguir tirar de lá

essas corroem
para lá do físico
e se calhar é por isso
que ainda não lhes consegui falar
sobre a verdadeira acidez das coisas

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os nabos da minha púcara

os nabos da minha púcara
são datados
não os tires
dão azia
gases
e só falam de coisas passadas

possivelmente até estão podres
não me admirava
é que com o tempo
eu esqueci-me deles
não foi por mal
só nunca me interessaram
ao ponto de tratar bem
do que é meu

termino cada dia sentado algures
a atirar cinza para cima deles
sem jeito para a jardinagem
mas habituado aos meus nabos
à minha púcara
à água que passou
por baixo da minha ponte
com que lavo a cara
antes de não dormir
antes de ver imagens de ontem
multiplicadas pelos corredores
onde deixo o que me pertence
para morrer