apontamentos 7/1/20

1.

Olhar para dentro é de evitar, ou assim me mostram alguns falantes.

Evitar olhar para dentro, mas dizer que se mora lá há muitos anos, muitas vezes.

2.

Acho alguns risos risíveis. Aqueles risos redondos e farfalhudos, como os dos magnatas nos filmes, por exemplo.

Acho, também, alguns choros risíveis. Aqueles que ensinam uma lição a quem pensa ser maior que o mundo, como os dos magnatas nos filmes, por exemplo.

3.

O Orwell dizia que os escritores são seres egocêntricos, que fazem o que fazem para tentar provar alguma coisa a si próprios (entre outras razões) e que negá-lo é estapafúrdio.

Concordo. No final de contas, escrevo para provar a mim mesmo que consigo pagar uma laranjada e uma torrada em pão saloio com meia dúzia de poemas.

apontamentos 1/1/20

1.

Na primeira noite do ano não passava um carro pela avenida. São estas noites sossegadas que me relembram que há luzes que ainda amo na cidade.

2.

Estava sentado na esplanada de um café e uma mulher, do outro lado da estrada, olhava para uma porta com uma dedicação imensa. Não consegui perceber se viu o passado naquela entrada ou se, de alguma forma, naquele momento o tempo não importasse: como se fosse o derradeiro presente.

De qualquer das formas é triste que uma porta faça alguém passar por tamanha quietude.

3.

aprender

a saltar à corda

não às conclusões

rua torta

na minha rua
o passeio
sempre esteve torto

os vizinhos preocupam-se
com a colocação da anca
e com a posição dos tornozelos
dizem que a rua torta
afeta o perfeito caminhar sobre o tempo

mas acho que quem a fez sabe disso
e que há calceteiros
que percebem melhor os dias
do que quem se limita a andar sobre eles

no final de contas
há que pensar sobre o que se pisa
mesmo que não se saiba
por onde se vai

diário #11

Hoje conversei (como qualquer bom amante) sobre trânsito intestinal, rabos e chambão de borrego. Este último chamou-me a atenção porque, como tenho estado com o tempo demasiado ocupado a fazer flores em cafés, as minhas ideias acabam por ser osso com pouca carne – como o chambão de um borrego.

“Que achas deste início que me deste?” perguntei.

Ela achou curioso mas eu achei uma bela porcaria. Não que essas três temáticas não sejam boas ou importantes, mas tenho andado com uma predisposição parva para não gostar de nada que me saia das mãos, a não ser que seja alguma bebida com bourbon, enfiada num shaker qualquer e enfeitado como os ramos que se dá à madrinha uma vez por ano.

Fiquei parado na ideia de dar um início a alguém. Não apenas na perspectiva de ajudar alguém a começar um texto desnecessário às onze e cinquenta e oito da noite; dar um início como quem cura feridas e quase que dá um corpo novo ao moribundo. Torna a pergunta bem mais interessante.

“Que achas deste início que me deste?”

É que eu não estava à espera, mas fico-te eternamente grato.

o pequeno conto do nu

Comecei por andar nu, como todos andamos a certo ponto. Apercebi-me, ainda em tenra idade, de que o resto do mundo usava roupas e achei por bem vestir-me também; mas sentia falta da aragem no umbigo, das gotas de chuva nos mamilos, do toque da pedra no pé, do frio nos tomates, e dei por mim despido outra vez.

No outro dia queimei a pila e não me importei, porém ando preocupado porque soube da existência de camisas que protegem o coração em caso de incêndio: uma preocupação explicável para quem sabe que sorri com o calor no peito, mas que não pára de brincar com o fogo quando é hora.

à saída do fojo

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para a colina
cheiro a mar
e o som dos pássaros
que se movem ininterruptamente
pelo céu

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para as árvores
cheiro a tabaco
e o som das cadeiras
que rangem incessantemente
no pátio

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para os lençóis
cheiro a limão e gasolina
e o som das gotas
que caem intermitentemente
do lado de lá do quarto

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para nada
cheiro a nada
e nenhum som
a ecoar nos azulejos
da casa que alberga
a liberdade e a calma

a verdadeira acidez das coisas

falava de coisas ácidas
às formigas que se passeavam pelo pátio

dizia que não comia morangos
porque me magoavam a língua
que não bebia a limonada da avó
porque me irritava a garganta
que não fazia mil e uma merdas
porque me feriam
os olhos
a boca
a cabeça
a pila
o coração

agora
que já como morangos
e bebo limonada
e faço mil e uma merdas
guardo caixas
bem escondidas no meu armário
para as quais me custa olhar
por não as conseguir tirar de lá

essas corroem
para lá do físico
e se calhar é por isso
que ainda não lhes consegui falar
sobre a verdadeira acidez das coisas

os nabos da minha púcara

os nabos da minha púcara
são datados
não os tires
dão azia
gases
e só falam de coisas passadas

possivelmente até estão podres
não me admirava
é que com o tempo
eu esqueci-me deles
não foi por mal
só nunca me interessaram
ao ponto de tratar bem
do que é meu

termino cada dia sentado algures
a atirar cinza para cima deles
sem jeito para a jardinagem
mas habituado aos meus nabos
à minha púcara
à água que passou
por baixo da minha ponte
com que lavo a cara
antes de não dormir
antes de ver imagens de ontem
multiplicadas pelos corredores
onde deixo o que me pertence
para morrer

ano velho de bigode

O último dia do ano. A última bolacha do pacote. A altura em que, cansados, tentamos juntar forças, três ou quatro tostões e umas garrafas de vinho para pedir com muita força que tudo seja diferente para o ano que virá. Acho mesmo piada ao ano novo. Uma graça um bocado mórbida. É que o “ano novo” é o “ano velho” de bigode, só que, de qualquer forma, teimamos em achar que vai ser tudo drasticamente diferente. Como se, ao tocar o sininho, entrássemos num universo paralelo onde aquelas parvoíces que pensamos ao comer as uvas se tornassem todas verdade (sim, digo parvoíces porque aposto que muitos [como eu] apenas pensam “por favor, que haja menos merda; que haja só menos merda”). Isso não acontece; por isso é que muita gente escolhe passar a meia-noite com uma ramada de alto nível: para não se lembrarem que o que aí vem não passa de uma extensão do que já foi, por isso não pode ser assim tão diferente – nem que ganhem o Euromilhões.

Achamos sempre que tudo vai mudar, está na nossa natureza. Queremos melhor, mais, de outro modo, porque nunca nos contentamos com o que temos. Acreditamos que há sempre espaço para desenvolvimento, até ao dia em que perdemos um bocado a esperança e passamos a passear pelo mundo em vez de ter aquele “brilhozinho nos olhos”, como falava o Sérgio Godinho – e esse dia pode chegar mais cedo ou mais tarde, mas penso que chega. Não tenho desejos ou resoluções para 2019. Vou só esperar, como todos nós mas sem mentir. Vou continuar a passear.

Feliz ano velho de bigode e levantem esse copo bem alto, que por umas horas pode ser que se esqueçam do que se quiserem esquecer.