o pequeno conto do nu

Comecei por andar nu, como todos andamos a certo ponto. Apercebi-me, ainda em tenra idade, de que o resto do mundo usava roupas e achei por bem vestir-me também; mas sentia falta da aragem no umbigo, das gotas de chuva nos mamilos, do toque da pedra no pé, do frio nos tomates, e dei por mim despido outra vez.

No outro dia queimei a pila e não me importei, porém ando preocupado porque soube da existência de camisas que protegem o coração em caso de incêndio: uma preocupação explicável para quem sabe que sorri com o calor no peito, mas que não pára de brincar com o fogo quando é hora.

à saída do fojo

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para a colina
cheiro a mar
e o som dos pássaros
que se movem ininterruptamente
pelo céu

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para as árvores
cheiro a tabaco
e o som das cadeiras
que rangem incessantemente
no pátio

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para os lençóis
cheiro a limão e gasolina
e o som das gotas
que caem intermitentemente
do lado de lá do quarto

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para nada
cheiro a nada
e nenhum som
a ecoar nos azulejos
da casa que alberga
a liberdade e a calma

a verdadeira acidez das coisas

falava de coisas ácidas
às formigas que se passeavam pelo pátio

dizia que não comia morangos
porque me magoavam a língua
que não bebia a limonada da avó
porque me irritava a garganta
que não fazia mil e uma merdas
porque me feriam
os olhos
a boca
a cabeça
a pila
o coração

agora
que já como morangos
e bebo limonada
e faço mil e uma merdas
guardo caixas
bem escondidas no meu armário
para as quais me custa olhar
por não as conseguir tirar de lá

essas corroem
para lá do físico
e se calhar é por isso
que ainda não lhes consegui falar
sobre a verdadeira acidez das coisas

os nabos da minha púcara

os nabos da minha púcara
são datados
não os tires
dão azia
gases
e só falam de coisas passadas

possivelmente até estão podres
não me admirava
é que com o tempo
eu esqueci-me deles
não foi por mal
só nunca me interessaram
ao ponto de tratar bem
do que é meu

termino cada dia sentado algures
a atirar cinza para cima deles
sem jeito para a jardinagem
mas habituado aos meus nabos
à minha púcara
à água que passou
por baixo da minha ponte
com que lavo a cara
antes de não dormir
antes de ver imagens de ontem
multiplicadas pelos corredores
onde deixo o que me pertence
para morrer

ano velho de bigode

O último dia do ano. A última bolacha do pacote. A altura em que, cansados, tentamos juntar forças, três ou quatro tostões e umas garrafas de vinho para pedir com muita força que tudo seja diferente para o ano que virá. Acho mesmo piada ao ano novo. Uma graça um bocado mórbida. É que o “ano novo” é o “ano velho” de bigode, só que, de qualquer forma, teimamos em achar que vai ser tudo drasticamente diferente. Como se, ao tocar o sininho, entrássemos num universo paralelo onde aquelas parvoíces que pensamos ao comer as uvas se tornassem todas verdade (sim, digo parvoíces porque aposto que muitos [como eu] apenas pensam “por favor, que haja menos merda; que haja só menos merda”). Isso não acontece; por isso é que muita gente escolhe passar a meia-noite com uma ramada de alto nível: para não se lembrarem que o que aí vem não passa de uma extensão do que já foi, por isso não pode ser assim tão diferente – nem que ganhem o Euromilhões.

Achamos sempre que tudo vai mudar, está na nossa natureza. Queremos melhor, mais, de outro modo, porque nunca nos contentamos com o que temos. Acreditamos que há sempre espaço para desenvolvimento, até ao dia em que perdemos um bocado a esperança e passamos a passear pelo mundo em vez de ter aquele “brilhozinho nos olhos”, como falava o Sérgio Godinho – e esse dia pode chegar mais cedo ou mais tarde, mas penso que chega. Não tenho desejos ou resoluções para 2019. Vou só esperar, como todos nós mas sem mentir. Vou continuar a passear.

Feliz ano velho de bigode e levantem esse copo bem alto, que por umas horas pode ser que se esqueçam do que se quiserem esquecer.

diário #7

Passei grande parte do dia a ouvir o Polka Dots and Moonbeams, do Bill Evans. Foi o primeiro álbum gravado depois da morte do Scott LaFaro, cúmplice eterno do Bill. Baladas atrás de baladas. Foda-se. Porque é que as baladas me fazem mais sentido que o resto das músicas? Tive esta conversa ontem: gostava que a felicidade me fizesse sentido, na extensão mais abrangente da palavra. Assim ia jantar fora com uma garota e não pensava “merda, quanto tempo é que vai demorar até se aperceber que não valho o esforço?”. Assim, se calhar, nem teria de ir jantar fora com uma garota. Sei lá. É tudo tão simples para os outros, se olharmos de esguelha.

I Fall in Love Too Easily destrói-me sempre que a ouço. Seja a versão que for. Parece escrita para mim. Parece que o Jule Styne pensou que haveria um gajo que fosse parvo o suficiente para acreditar em todas as palavras que o Sammy Cahn escreveu, e por isso fez uma melodia igualmente parva. Acho que é por isso que gosto tanto do Anchors Aweigh. Não por causa do Sinatra e do Kelly a contracenarem. Por causa da porcaria daquela música.

Passo o dia a ouvir destas músicas e a pensar sobre coisas várias, e depois perguntam-me se está tudo bem. Que raio de pergunta é “está tudo bem”? Não. Não está. Dificilmente estará, como qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe (a não ser que não olhe para as coisas com “olhos de ver” – como diz a minha mãe).

true blue

true blue
lurks in the corners
when the boys get together to drink
and waits
patiently
for the lonesome moment of departure
to wrap his filthy hands around any of them

true blue
with the yellow eyes
anxiously knocks on her bedroom door
wants to tell her the truth
about living alone

true blue
the sadist
that hides in the bushes
waiting for boys and girls to grow up
masturbating to the sound of lost innocence
contemplating the grey pubes of lady Marcy
that used to be happy
fornicating the men and women
that learn from exaggerated stories
what they should’ve learned by themselves
or mom and dad
or teacher
devil and god
equally inexistant within the terms of current logic

true blue
the annihilator
true blue
the wise
true blue
the ridiculous truth of our sexual encounters
true blue
the cabin in which I long to rest my bones
true blue
the bipolar
true blue
the dominatrix of our once pure hearts
true blue
true you
blue you
true blue
the tears that travel from eyes to feet
every night I sleep by my lonesome

whenever I try to lose you
true blue
you find a way to slither back inside
forcing me to contemplate sadness
in the most peculiar way

whenever I stroll down the avenues at night
hoping for the difference sunlight brings
I end up chained to a bar stool with you
true blue
pissing red and green away
making solitude the only love story I find comfort on

and if you are the one I should marry
let’s get on with it
so I can stop having wet lucid dreams
about colors that don’t exist
anymore

bicho do mato

a mãe e o pai
disseram-me que xixi
é na sanita
e eu cumpro essa fórmula
por respeito
e por vezes conveniência

mas quando me apanho só
mijo no chão
quero sentir que tenho escolha
e que não há decisões
assim tão definitivas

a mãe e o pai
disseram-me que o amor
também tem fórmula
que há alguém por aí
que gosta muito de mim
e que vamos morar juntos
e comprar cadeiras
e discutir sobre que chá vamos beber

eu tento cumprir esse formato
por respeito
e por vezes conveniência

mas quando me apanho só
sento-me no chão
e aprecio a falta de aragem no meu quarto
sem cadeiras
a pensar que por acaso esta fórmula
não funciona comigo
porque sou um bicho do mato
com três ou quatro camisas
e que se calhar estou bem
quietinho e caladinho
sem chatear ninguém

mel e jasmim

do cume
desta montanha
onde me sento
sobre detritos dos dias
vê-se o mar
emancipado do mundo
onde só há silêncio e tempo
para corrigir a posição das mãos
que ora te agarram
ora me mastigam o sexo

com toda a franqueza
preferia não ter
de me tentar satisfazer
mas as minhas mãos
não se corrigem
por isso de nada me vale
alcançar o mar

caso um dia decidas
que o tremer do meu corpo
não te aflige
procura o trono de lixo
que fiz para me distanciar de ti

não prometo
que esta torre
pare de crescer
mas ainda tenho
por aqui
umas velinhas
com cheiro a mel e jasmim
que perfumam
até o mais vil dos homens