à saída do fojo

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para a colina
cheiro a mar
e o som dos pássaros
que se movem ininterruptamente
pelo céu

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para as árvores
cheiro a tabaco
e o som das cadeiras
que rangem incessantemente
no pátio

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para os lençóis
cheiro a limão e gasolina
e o som das gotas
que caem intermitentemente
do lado de lá do quarto

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para nada
cheiro a nada
e nenhum som
a ecoar nos azulejos
da casa que alberga
a liberdade e a calma

vozes

as vozes

pequeno burburinho
a tactear-me a nuca
apoiado com os dois braços
no banco onde me sento
seguro de si
para que não me sinta
seguro de nada
a bafejar aquele fétido aroma
a chumbo

por onde
aos pares
anda o mundo
ando eu acocorado
para que passe ao lado o dia
qualquer dia
para que
se me encontrarem
seja fácil dizer que estou à procura
de alguma coisa
muito pequena
quase invisível
mesmo estando eu a tentar passar
despercebido
ao lado dela

a hecatombe da vertiginosa audácia de vidro
a redonda e vilipendiosa taça
por onde os meus lábios passeiam
grita para que me esconda

eu obedeço
sem colocar qualquer questão

às vozes

sair da vista ou da presença

se alguém roubar a morte
por qualquer razão que seja
que se esqueça de passar cá por casa
eu não saberia o que fazer
com a vida eterna

talvez fosse forçado
a contar escadarias para passar o tempo
mesmo nunca tendo tido interesse
em coisas que me levem
ao mesmo lugar de sempre

se alguém roubar a morte
por qualquer razão que seja
que pergunte primeiro se tem mal
levar aquilo por que se espera
pacientemente
desde o ventre

há quem goste do silêncio
mas que nunca o tenha
verdadeiramente
conhecido

(é engraçado como
com o passar dos dias
desaparecer
passa de medo
a poema)