o pequeno conto do nu

Comecei por andar nu, como todos andamos a certo ponto. Apercebi-me, ainda em tenra idade, de que o resto do mundo usava roupas e achei por bem vestir-me também; mas sentia falta da aragem no umbigo, das gotas de chuva nos mamilos, do toque da pedra no pé, do frio nos tomates, e dei por mim despido outra vez.

No outro dia queimei a pila e não me importei, porém ando preocupado porque soube da existência de camisas que protegem o coração em caso de incêndio: uma preocupação explicável para quem sabe que sorri com o calor no peito, mas que não pára de brincar com o fogo quando é hora.

true blue

true blue
lurks in the corners
when the boys get together to drink
and waits
patiently
for the lonesome moment of departure
to wrap his filthy hands around any of them

true blue
with the yellow eyes
anxiously knocks on her bedroom door
wants to tell her the truth
about living alone

true blue
the sadist
that hides in the bushes
waiting for boys and girls to grow up
masturbating to the sound of lost innocence
contemplating the grey pubes of lady Marcy
that used to be happy
fornicating the men and women
that learn from exaggerated stories
what they should’ve learned by themselves
or mom and dad
or teacher
devil and god
equally inexistant within the terms of current logic

true blue
the annihilator
true blue
the wise
true blue
the ridiculous truth of our sexual encounters
true blue
the cabin in which I long to rest my bones
true blue
the bipolar
true blue
the dominatrix of our once pure hearts
true blue
true you
blue you
true blue
the tears that travel from eyes to feet
every night I sleep by my lonesome

whenever I try to lose you
true blue
you find a way to slither back inside
forcing me to contemplate sadness
in the most peculiar way

whenever I stroll down the avenues at night
hoping for the difference sunlight brings
I end up chained to a bar stool with you
true blue
pissing red and green away
making solitude the only love story I find comfort on

and if you are the one I should marry
let’s get on with it
so I can stop having wet lucid dreams
about colors that don’t exist
anymore

bicho do mato

a mãe e o pai
disseram-me que xixi
é na sanita
e eu cumpro essa fórmula
por respeito
e por vezes conveniência

mas quando me apanho só
mijo no chão
quero sentir que tenho escolha
e que não há decisões
assim tão definitivas

a mãe e o pai
disseram-me que o amor
também tem fórmula
que há alguém por aí
que gosta muito de mim
e que vamos morar juntos
e comprar cadeiras
e discutir sobre que chá vamos beber

eu tento cumprir esse formato
por respeito
e por vezes conveniência

mas quando me apanho só
sento-me no chão
e aprecio a falta de aragem no meu quarto
sem cadeiras
a pensar que por acaso esta fórmula
não funciona comigo
porque sou um bicho do mato
com três ou quatro camisas
e que se calhar estou bem
quietinho e caladinho
sem chatear ninguém

mel e jasmim

do cume
desta montanha
onde me sento
sobre detritos dos dias
vê-se o mar
emancipado do mundo
onde só há silêncio e tempo
para corrigir a posição das mãos
que ora te agarram
ora me mastigam o sexo

com toda a franqueza
preferia não ter
de me tentar satisfazer
mas as minhas mãos
não se corrigem
por isso de nada me vale
alcançar o mar

caso um dia decidas
que o tremer do meu corpo
não te aflige
procura o trono de lixo
que fiz para me distanciar de ti

não prometo
que esta torre
pare de crescer
mas ainda tenho
por aqui
umas velinhas
com cheiro a mel e jasmim
que perfumam
até o mais vil dos homens

o homem gordo

há um homem gordo
no cimo de todas as coisas
que come sonhos fritos
e os expele
por via anal
para os restantes
sob a forma de palavreado oco

os restantes
(que estão por baixo
do homem gordo)
debatem entre si
qual a melhor forma de o segurar
sem que ele parta a espinha
e machuque o rabiosque

há algum tempo atrás
encontrei um pau
afiei o pau
limei o pau
envernizei o pau
e usei-o
para picar o homem gordo
na bochecha do cú

alguns dos restantes
não gostaram muito disso
(felizmente não sou o único a fazê-lo)
mas eu já me decidi

se ele cair
eu tento apanhá-lo
assim ele mata-me logo
e os restantes podem continuar
a tratar-lhe do rabiosque

mas se ele sair pelo próprio pé
é bom que não tenha
de segurar em mais ninguém

drummond de andrade, carlos

ia saltando

pelos nenúfares
como os bichos mais pequenos
irradiava luz
fazia florir o mar
salgava a terra

encontrei-o
nesse lugar
de óculos baços
chamou-me para passear

e agora, josé?
parto da fantasia
sedento
e a saber que lá fora
no meio de toda a apatia
há uma pedra
e outra
e outra
no caminho

beatriz

duvido que alguma vez
vejas o mundo
por puro egoísmo meu
mas acredito
que te faria um favor

privar-te da existência
poupar-te da tristeza

gostava de te ver
beatriz
mas não sei se aguentaria as tuas lágrimas
por isso perdoa-me
mas ficarei pelos cadernos
e pelos bares de madrugada
sem alguma vez saber
se finalmente
alguém teria
os olhos do meu pai

Quarto 305

Havia um gajo no quarto 305 que saía todos os dias e ia buscar um saco ao meio do mato. Saía, com um cigarro na boca, apagado, e ia buscar um saco ao meio do nada. Saía, cumprimentava a mãe, punha o cigarro na boca, não o acendia e ia buscar um saco ao meio das plantas. Abria a porta, saía, cumprimentava a mãe com dois beijos na cara e um na mão, punha o cigarro na boca, não o acendia, olhava para mim – sentado no café do outro lado da estrada a escrever sobre ele – e ia buscar um saco escondido no meio da vegetação.

Eu sentava-me no café, pedia uma cerveja, tirava o caderno e a caneta, olhava para a porta do prédio, ponderava se ia ver o gajo, via o gajo, escrevia um bocado sobre isso, ficava curioso, ia ver ao meio do mato se havia outro saco e só via plantas, cigarros por fumar e discos e livros e tudo.

Apanhei-o uma vez numa dessas viagens. Disse-lhe o que sabia e perguntei-lhe porque o fazia. Ele disse-me que era difícil levar a verdade até casa, mas não deixou de me dar um soco nos tomates.