o pequeno conto do nu

Comecei por andar nu, como todos andamos a certo ponto. Apercebi-me, ainda em tenra idade, de que o resto do mundo usava roupas e achei por bem vestir-me também; mas sentia falta da aragem no umbigo, das gotas de chuva nos mamilos, do toque da pedra no pé, do frio nos tomates, e dei por mim despido outra vez.

No outro dia queimei a pila e não me importei, porém ando preocupado porque soube da existência de camisas que protegem o coração em caso de incêndio: uma preocupação explicável para quem sabe que sorri com o calor no peito, mas que não pára de brincar com o fogo quando é hora.

bicho do mato

a mãe e o pai
disseram-me que xixi
é na sanita
e eu cumpro essa fórmula
por respeito
e por vezes conveniência

mas quando me apanho só
mijo no chão
quero sentir que tenho escolha
e que não há decisões
assim tão definitivas

a mãe e o pai
disseram-me que o amor
também tem fórmula
que há alguém por aí
que gosta muito de mim
e que vamos morar juntos
e comprar cadeiras
e discutir sobre que chá vamos beber

eu tento cumprir esse formato
por respeito
e por vezes conveniência

mas quando me apanho só
sento-me no chão
e aprecio a falta de aragem no meu quarto
sem cadeiras
a pensar que por acaso esta fórmula
não funciona comigo
porque sou um bicho do mato
com três ou quatro camisas
e que se calhar estou bem
quietinho e caladinho
sem chatear ninguém

mel e jasmim

do cume
desta montanha
onde me sento
sobre detritos dos dias
vê-se o mar
emancipado do mundo
onde só há silêncio e tempo
para corrigir a posição das mãos
que ora te agarram
ora me mastigam o sexo

com toda a franqueza
preferia não ter
de me tentar satisfazer
mas as minhas mãos
não se corrigem
por isso de nada me vale
alcançar o mar

caso um dia decidas
que o tremer do meu corpo
não te aflige
procura o trono de lixo
que fiz para me distanciar de ti

não prometo
que esta torre
pare de crescer
mas ainda tenho
por aqui
umas velinhas
com cheiro a mel e jasmim
que perfumam
até o mais vil dos homens

o homem gordo

há um homem gordo
no cimo de todas as coisas
que come sonhos fritos
e os expele
por via anal
para os restantes
sob a forma de palavreado oco

os restantes
(que estão por baixo
do homem gordo)
debatem entre si
qual a melhor forma de o segurar
sem que ele parta a espinha
e machuque o rabiosque

há algum tempo atrás
encontrei um pau
afiei o pau
limei o pau
envernizei o pau
e usei-o
para picar o homem gordo
na bochecha do cú

alguns dos restantes
não gostaram muito disso
(felizmente não sou o único a fazê-lo)
mas eu já me decidi

se ele cair
eu tento apanhá-lo
assim ele mata-me logo
e os restantes podem continuar
a tratar-lhe do rabiosque

mas se ele sair pelo próprio pé
é bom que não tenha
de segurar em mais ninguém

drummond de andrade, carlos

ia saltando

pelos nenúfares
como os bichos mais pequenos
irradiava luz
fazia florir o mar
salgava a terra

encontrei-o
nesse lugar
de óculos baços
chamou-me para passear

e agora, josé?
parto da fantasia
sedento
e a saber que lá fora
no meio de toda a apatia
há uma pedra
e outra
e outra
no caminho

beatriz

duvido que alguma vez
vejas o mundo
por puro egoísmo meu
mas acredito
que te faria um favor

privar-te da existência
poupar-te da tristeza

gostava de te ver
beatriz
mas não sei se aguentaria as tuas lágrimas
por isso perdoa-me
mas ficarei pelos cadernos
e pelos bares de madrugada
sem alguma vez saber
se finalmente
alguém teria
os olhos do meu pai

café

no café
a gente estranha
quem se senta sozinho
como se de um bicho se tratasse
como se houvesse grades
que separam a máscara
da nudez
como se a solidão
fosse doença rara
que faz cair a genitália
numa banheira de tristezas

há quem não tenha paciência
para ir ao armário
escolher uma cara nova
todo o dia
todos os dias
para sempre

há quem vá
ao café
pelo café
e nada mais

diário #4

Passei o dia fechado. Não num espaço, num marasmo. Acontece. Não é culpa de ninguém senão minha, na verdade. Escrevi um poema muito pequenino, que me pareceu parolo no início, mas disseram-me que não era assim tanto:

queria
que a saudade
fosse vendida
em pacotinhos
como as bolachas do supermercado

assim poderia haver razão
e prescrição médica
para jejuar
e não sentir falta de nada

dizem que dá diabetes

Não sei qual é o meu amor pelos diminutivos hoje. Se calhar por estar fechado sinto que tudo que é aparentemente pequeno é importante; e é, mas justifica a sufixação? Talvez. Aliás, porque não?

Foi um dia longo, focado na pequenez das coisas – como na minha figura, que ao lado da tua parece minúscula (mesmo eu tendo um metro e noventa, como diz no cartão de cidadão).

Foi um dia longo, e continuará a ser, porque não consigo dormir. Acho que vou ver o The Pervert’s Guide to Ideology do Slavoj Žižek, que é agressivo com classe.

cotovia

gostava de saber
se as cotovias cantam igual
quando estão entre elas
talvez desdigam
as promessas
e estraguem as cantigas
que nos chilreiam ao acordar

gostava de saber se tu
minha cotovia
entoavas verdade
ou se com os teus me condenam
pela merda que sou

encontro conforto no meu caos
e isso já não me tira o sono
mas não quero duvidar
da tua pureza

isso faz-me mal