diário #5

Quando não me sinto bem fico em casa. O problema de ficar em casa quando não me sinto bem é que, com o tempo que tenho para pensar e escrever, acabo por ficar pior da cabeça, mesmo que fique melhor do corpo. De um momento para o outro todo o carro que passa na rua é uma flecha a trespassar-me o ouvido, todo o toque do sapato no andar de cima é um sem-fim de alarmes colados à testa, todo o pedido é demais. Não é como se pudesse evitar; sei lá como é que isto se processa. Por isso é que a merda da cabana não me sai da cabeça.

“Ah mas estás a dizer isso porque não sabes o que é realmente viver sozinho”, “isso é só picuisse”, “não sabes do que falas”.

Sim, porque eu sou o primeiro a não querer viver rodeado de mentiras e caos. Deixem-se é de paternalismos. É tudo muito lindo, se é isso que querem ouvir, mas deixem-me em paz. A realidade é que eu gosto muito de muita gente, e muita coisa; mas também gosto bastante do meu sossego e do meu silêncio. Acima de tudo adoro a minha sanidade, que se vai deteriorando com este barulho todo.

Ontem revi o Howl com o James Franco. Acho que ele faz um papel do caraças, e que a temática é extremamente importante. O Ginsberg não era só um boémio, homossexual e um drogado, como pinta a mente pequena; era e é um marco da luta pela liberdade de expressão e pela validação artística fora dos cânones, no campo da literatura. Se calhar está na altura de algumas pessoas lerem um bocado sobre a beat generation (que não existe) e perceberem que a mensagem de nada tem a ver com algumas atitudes pelas quais ficaram conhecidos. Eu gostava de ter metade dos tomates desses degenerados. Se calhar era mais feliz.

Acho que hoje estou numa de ver um filme parvo. Do género das Tartarugas Ninja ou assim. E beber chá; estou numa de beber chá. Provavelmente de gengibre, para ver se me passa esta dor de garganta. Não que ande a fazer nada de inapropriado com a garganta, para além de falar quando devia estar calado.

o homem gordo

há um homem gordo
no cimo de todas as coisas
que come sonhos fritos
e os expele
por via anal
para os restantes
sob a forma de palavreado oco

os restantes
(que estão por baixo
do homem gordo)
debatem entre si
qual a melhor forma de o segurar
sem que ele parta a espinha
e machuque o rabiosque

há algum tempo atrás
encontrei um pau
afiei o pau
limei o pau
envernizei o pau
e usei-o
para picar o homem gordo
na bochecha do cú

alguns dos restantes
não gostaram muito disso
(felizmente não sou o único a fazê-lo)
mas eu já me decidi

se ele cair
eu tento apanhá-lo
assim ele mata-me logo
e os restantes podem continuar
a tratar-lhe do rabiosque

mas se ele sair pelo próprio pé
é bom que não tenha
de segurar em mais ninguém