o lugar dela

para a inauguração da exposição
do coletivo Mitose
27/04/19

I: Ele

é no andar de baixo
longe de toda a gente
é na boutique e no armazém atrás da boutique
é perto da sujidade apenas por ser perto da sujidade
é para o outro lado
para onde não te ouçam
é na rua padre Américo Número 102
e é bom que chegues cedo porque não estou para brincadeiras
é naquele quartinho muito pequenino
aquele que não tem janelas
onde não desejava passar dois minutos quanto mais a vida inteira
é à beira do forno
é a calar a miudagem
é a olhar por todos
é comigo
é caladinha
quietinha
é aqui
é assim
porque sim
é comigo porque se não for comigo não é com mais ninguém
não pode ser com mais ninguém
e não digas que não vais com sorte
que ao domingo ainda te levo à missa

só Nosso Senhor sabe o quanto eu sofro
ai se não fosse o vinho
ai se não fosse o cigarrinho depois do café
que seria de mim?

II: Ela

lancei os vestidos ao mar
rasguei as blusas
estraguei os colares
e peguei nos pedacinhos todos para meter na lareira
para te queimar a memória
para me limpar de tristezas

deixei a cadela mijar nos teus sapatos
dei as gravatas ao vizinho
não te engomei camisas
calças
cuecas
meias
não te engomei um caralho
nunca te devia ter engomado ponta de um corno

a miudagem vai para a casa da minha irmã
não interessa para onde eu vou
o que importa realmente
é que o quarto agora tem janela
e é tudo tão bonito lá fora
que nunca mais irei contar as marcas da parede
que nunca mais irei polir o teu cálice
que nunca mais irei fugir de casa
porque nunca mais irei fugir de ti

PS:

deixei arroz para a semana inteira no frigorífico
assim tens tempo para aprender a cozinhar
e não vou mais à missa
já viste a sorte que tu tens?

III: Eu, que nunca lhe cheguei a dizer estas palavras

o lugar dela é um segredo
dos que não se verbalizam
dos imutáveis
e pensar que assim não o é
é para quem não sabe ver
que nos seus olhos nascem rios
que nos seus lábios crescem flores
que na sua pele o sol se põe
que na sua mão cabe todo o mundo

o lugar dela é do seu sorriso
daquele sorriso que posso deixar de ver
mas que de modo algum morrerá
é da sua cabeça
do seu sangue
do seu coração
é da sua memória que
se negra for
é porque houve gente pequena
que não conseguiu acender a luz do quarto

o lugar dela
é dela
e dele só ela sabe
o que me pertence
é apenas
o meu amor

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a verdadeira acidez das coisas

falava de coisas ácidas
às formigas que se passeavam pelo pátio

dizia que não comia morangos
porque me magoavam a língua
que não bebia a limonada da avó
porque me irritava a garganta
que não fazia mil e uma merdas
porque me feriam
os olhos
a boca
a cabeça
a pila
o coração

agora
que já como morangos
e bebo limonada
e faço mil e uma merdas
guardo caixas
bem escondidas no meu armário
para as quais me custa olhar
por não as conseguir tirar de lá

essas corroem
para lá do físico
e se calhar é por isso
que ainda não lhes consegui falar
sobre a verdadeira acidez das coisas

fraga do puio

era aqui que me esperava
naqueles navegares diurnos
pelo que não existe
onde espumava pela boca
e corria desenfreadamente
até algum lugar
irreal
julgava eu
até te ver

era aqui que me esperava
para onde fugia dos lábios que me matavam
e me reunia comigo mesmo
numa eterna ânsia de que tudo parasse
por um segundo
era aqui
onde tudo existia sem pesar
aquele falso local
julgava eu
até te ver

era aqui que me esperava
e é para aqui que me traz a mente
quando mente
aqui
ainda bem que te encontrei
começava a pensar que não existias
ou melhor
que eu nunca tivesse existido
para além das imagens que fabrico
quando a merda emerge o corpo
em fantasia

14/02

acaba por ser um dia como os outros
sou capaz de passar mais tempo no bar
talvez aventurar-me no devil’s cut
ou no grey goose
parceiros que se fazem
nos passeios pela cidade
em dias que não significam nada
mas que me relembram de tudo

talvez tire
finalmente
a tua fotografia da minha carteira
ou se calhar não lhe mexo
que assim compro chocolates a fantasmas

não sei

 

os nabos da minha púcara

os nabos da minha púcara
são datados
não os tires
dão azia
gases
e só falam de coisas passadas

possivelmente até estão podres
não me admirava
é que com o tempo
eu esqueci-me deles
não foi por mal
só nunca me interessaram
ao ponto de tratar bem
do que é meu

termino cada dia sentado algures
a atirar cinza para cima deles
sem jeito para a jardinagem
mas habituado aos meus nabos
à minha púcara
à água que passou
por baixo da minha ponte
com que lavo a cara
antes de não dormir
antes de ver imagens de ontem
multiplicadas pelos corredores
onde deixo o que me pertence
para morrer

diário #9

Não tenho conseguido escrever. Sento-me à mesa com o caderno aberto, a caneta na mão, e nada. Vou dar uma volta pelo quarteirão, fumo uns cigarros e bebo um café à beira do jardim. Puxo uma vez mais do caderno, da caneta, e nada. Bebo uma garrafa de vinho quando a lua acompanha o vício, continuo nessa demanda até te ver em todo o lado. Agarro no caderno, na caneta, e nada. Foda-se.

 

encontrei em ti
o tempo e a calma
de braço dado
a contar tostões para comprar
broas de mel

nunca mais os vi passar
por mim
desde que foste
até ao Japão a pé
(suponho que foste
porque nunca mais te vi também)

 

Isto foi o máximo. Em duas semanas, quase três. Talvez seja porque tenho andado pior da saúde. Há quem tome constantemente o “paracetamol dos dias” e ande para a frente como deve de ser, mas eu não consigo. Essa porcaria dá-me vómitos e tenho de me resignar ao facto de existirem certos assuntos que me inquietam de uma maneira debilitante.

praga

Praga fez sentido na altura de fugir
titubeante
do som da tua voz
como faz a quem ergue catedrais em nome de Venceslau
para não se perguntar mais
sobre o que é morrer

recordo-me da leveza com que habitavam
certas gentes
no interior das imponentes naves dessas construções
tão etéreas elas
quanto eu
por razões distintas

que a distância permite-me respirar fundo
e sucumbir aos pés dos dias
com vontade de os perceber
enquanto que saber-se distante das resoluções
tende a dar comichão a meio mundo

se houve um dia em que respostas simples
para a imutabilidade do fim da vida
me irritassem a pele dos tomates
agora quase que invejo
ter a capacidade para parar de ponderar
durante um minuto
e simplesmente crer

não evito a ideia de que voltarei à não existência
da qual não me lembro
mas Praga volta a fazer sentido
como terá sempre lógica para quem pede a São Vito
que não deixe de estar aqui
ou que se deixar
que parta para um sítio bonito

partilharemos sempre uma cidade
uma morte
e no final
um de nós terá razão

até lá
fujo do som da tua voz

vozes

as vozes

pequeno burburinho
a tactear-me a nuca
apoiado com os dois braços
no banco onde me sento
seguro de si
para que não me sinta
seguro de nada
a bafejar aquele fétido aroma
a chumbo

por onde
aos pares
anda o mundo
ando eu acocorado
para que passe ao lado o dia
qualquer dia
para que
se me encontrarem
seja fácil dizer que estou à procura
de alguma coisa
muito pequena
quase invisível
mesmo estando eu a tentar passar
despercebido
ao lado dela

a hecatombe da vertiginosa audácia de vidro
a redonda e vilipendiosa taça
por onde os meus lábios passeiam
grita para que me esconda

eu obedeço
sem colocar qualquer questão

às vozes

sair da vista ou da presença

se alguém roubar a morte
por qualquer razão que seja
que se esqueça de passar cá por casa
eu não saberia o que fazer
com a vida eterna

talvez fosse forçado
a contar escadarias para passar o tempo
mesmo nunca tendo tido interesse
em coisas que me levem
ao mesmo lugar de sempre

se alguém roubar a morte
por qualquer razão que seja
que pergunte primeiro se tem mal
levar aquilo por que se espera
pacientemente
desde o ventre

há quem goste do silêncio
mas que nunca o tenha
verdadeiramente
conhecido

(é engraçado como
com o passar dos dias
desaparecer
passa de medo
a poema)