o pequeno conto do nu

Comecei por andar nu, como todos andamos a certo ponto. Apercebi-me, ainda em tenra idade, de que o resto do mundo usava roupas e achei por bem vestir-me também; mas sentia falta da aragem no umbigo, das gotas de chuva nos mamilos, do toque da pedra no pé, do frio nos tomates, e dei por mim despido outra vez.

No outro dia queimei a pila e não me importei, porém ando preocupado porque soube da existência de camisas que protegem o coração em caso de incêndio: uma preocupação explicável para quem sabe que sorri com o calor no peito, mas que não pára de brincar com o fogo quando é hora.

à saída do fojo

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para a colina
cheiro a mar
e o som dos pássaros
que se movem ininterruptamente
pelo céu

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para as árvores
cheiro a tabaco
e o som das cadeiras
que rangem incessantemente
no pátio

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para os lençóis
cheiro a limão e gasolina
e o som das gotas
que caem intermitentemente
do lado de lá do quarto

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para nada
cheiro a nada
e nenhum som
a ecoar nos azulejos
da casa que alberga
a liberdade e a calma

14/02

acaba por ser um dia como os outros
sou capaz de passar mais tempo no bar
talvez aventurar-me no devil’s cut
ou no grey goose
parceiros que se fazem
nos passeios pela cidade
em dias que não significam nada
mas que me relembram de tudo

talvez tire
finalmente
a tua fotografia da minha carteira
ou se calhar não lhe mexo
que assim compro chocolates a fantasmas

não sei

 

sair da vista ou da presença

se alguém roubar a morte
por qualquer razão que seja
que se esqueça de passar cá por casa
eu não saberia o que fazer
com a vida eterna

talvez fosse forçado
a contar escadarias para passar o tempo
mesmo nunca tendo tido interesse
em coisas que me levem
ao mesmo lugar de sempre

se alguém roubar a morte
por qualquer razão que seja
que pergunte primeiro se tem mal
levar aquilo por que se espera
pacientemente
desde o ventre

há quem goste do silêncio
mas que nunca o tenha
verdadeiramente
conhecido

(é engraçado como
com o passar dos dias
desaparecer
passa de medo
a poema)

três ou quatro ou quinze

quando me sentei
pela primeira vez
sozinho
houve um estranho conforto
que assolou a casa onde cresci
como se na merda
houvesse a única certeza
a única melodia inalcançável
que embala o mundo
no natural desenvolvimento

tudo estava normal
os amores floriam da mesma maneira
os ordenados caíam nas contas bancárias
a televisão passava o noticiário à hora do costume
os bêbados continuavam bêbados
o cão peidava-se no sofá

tudo estava como
era suposto estar

talvez não haja o que mudar
a gente continua a bater com os cornos na parede
os animais de estimação continuam a ter gases
as canções continuam tristes
(as que valem a pena)
o noticiário continua a dar às oito
e eu continuo na mesma

assim
uma contínua maré de normalidade
e solidão
três ou quatro ou quinze copos de whisky
duas refeições mal feitas
algumas desculpas
(por muito reais que sejam)
para se continuar só
e as notícias na televisão
à hora que sempre passaram
desde que
pela primeira vez
me sentei sozinho

true blue

true blue
lurks in the corners
when the boys get together to drink
and waits
patiently
for the lonesome moment of departure
to wrap his filthy hands around any of them

true blue
with the yellow eyes
anxiously knocks on her bedroom door
wants to tell her the truth
about living alone

true blue
the sadist
that hides in the bushes
waiting for boys and girls to grow up
masturbating to the sound of lost innocence
contemplating the grey pubes of lady Marcy
that used to be happy
fornicating the men and women
that learn from exaggerated stories
what they should’ve learned by themselves
or mom and dad
or teacher
devil and god
equally inexistant within the terms of current logic

true blue
the annihilator
true blue
the wise
true blue
the ridiculous truth of our sexual encounters
true blue
the cabin in which I long to rest my bones
true blue
the bipolar
true blue
the dominatrix of our once pure hearts
true blue
true you
blue you
true blue
the tears that travel from eyes to feet
every night I sleep by my lonesome

whenever I try to lose you
true blue
you find a way to slither back inside
forcing me to contemplate sadness
in the most peculiar way

whenever I stroll down the avenues at night
hoping for the difference sunlight brings
I end up chained to a bar stool with you
true blue
pissing red and green away
making solitude the only love story I find comfort on

and if you are the one I should marry
let’s get on with it
so I can stop having wet lucid dreams
about colors that don’t exist
anymore

bicho do mato

a mãe e o pai
disseram-me que xixi
é na sanita
e eu cumpro essa fórmula
por respeito
e por vezes conveniência

mas quando me apanho só
mijo no chão
quero sentir que tenho escolha
e que não há decisões
assim tão definitivas

a mãe e o pai
disseram-me que o amor
também tem fórmula
que há alguém por aí
que gosta muito de mim
e que vamos morar juntos
e comprar cadeiras
e discutir sobre que chá vamos beber

eu tento cumprir esse formato
por respeito
e por vezes conveniência

mas quando me apanho só
sento-me no chão
e aprecio a falta de aragem no meu quarto
sem cadeiras
a pensar que por acaso esta fórmula
não funciona comigo
porque sou um bicho do mato
com três ou quatro camisas
e que se calhar estou bem
quietinho e caladinho
sem chatear ninguém

mel e jasmim

do cume
desta montanha
onde me sento
sobre detritos dos dias
vê-se o mar
emancipado do mundo
onde só há silêncio e tempo
para corrigir a posição das mãos
que ora te agarram
ora me mastigam o sexo

com toda a franqueza
preferia não ter
de me tentar satisfazer
mas as minhas mãos
não se corrigem
por isso de nada me vale
alcançar o mar

caso um dia decidas
que o tremer do meu corpo
não te aflige
procura o trono de lixo
que fiz para me distanciar de ti

não prometo
que esta torre
pare de crescer
mas ainda tenho
por aqui
umas velinhas
com cheiro a mel e jasmim
que perfumam
até o mais vil dos homens

o homem gordo

há um homem gordo
no cimo de todas as coisas
que come sonhos fritos
e os expele
por via anal
para os restantes
sob a forma de palavreado oco

os restantes
(que estão por baixo
do homem gordo)
debatem entre si
qual a melhor forma de o segurar
sem que ele parta a espinha
e machuque o rabiosque

há algum tempo atrás
encontrei um pau
afiei o pau
limei o pau
envernizei o pau
e usei-o
para picar o homem gordo
na bochecha do cú

alguns dos restantes
não gostaram muito disso
(felizmente não sou o único a fazê-lo)
mas eu já me decidi

se ele cair
eu tento apanhá-lo
assim ele mata-me logo
e os restantes podem continuar
a tratar-lhe do rabiosque

mas se ele sair pelo próprio pé
é bom que não tenha
de segurar em mais ninguém

drummond de andrade, carlos

ia saltando

pelos nenúfares
como os bichos mais pequenos
irradiava luz
fazia florir o mar
salgava a terra

encontrei-o
nesse lugar
de óculos baços
chamou-me para passear

e agora, josé?
parto da fantasia
sedento
e a saber que lá fora
no meio de toda a apatia
há uma pedra
e outra
e outra
no caminho