vozes

as vozes

pequeno burburinho
a tactear-me a nuca
apoiado com os dois braços
no banco onde me sento
seguro de si
para que não me sinta
seguro de nada
a bafejar aquele fétido aroma
a chumbo

por onde
aos pares
anda o mundo
ando eu acocorado
para que passe ao lado o dia
qualquer dia
para que
se me encontrarem
seja fácil dizer que estou à procura
de alguma coisa
muito pequena
quase invisível
mesmo estando eu a tentar passar
despercebido
ao lado dela

a hecatombe da vertiginosa audácia de vidro
a redonda e vilipendiosa taça
por onde os meus lábios passeiam
grita para que me esconda

eu obedeço
sem colocar qualquer questão

às vozes

sair da vista ou da presença

se alguém roubar a morte
por qualquer razão que seja
que se esqueça de passar cá por casa
eu não saberia o que fazer
com a vida eterna

talvez fosse forçado
a contar escadarias para passar o tempo
mesmo nunca tendo tido interesse
em coisas que me levem
ao mesmo lugar de sempre

se alguém roubar a morte
por qualquer razão que seja
que pergunte primeiro se tem mal
levar aquilo por que se espera
pacientemente
desde o ventre

há quem goste do silêncio
mas que nunca o tenha
verdadeiramente
conhecido

(é engraçado como
com o passar dos dias
desaparecer
passa de medo
a poema)

três ou quatro ou quinze

quando me sentei
pela primeira vez
sozinho
houve um estranho conforto
que assolou a casa onde cresci
como se na merda
houvesse a única certeza
a única melodia inalcançável
que embala o mundo
no natural desenvolvimento

tudo estava normal
os amores floriam da mesma maneira
os ordenados caíam nas contas bancárias
a televisão passava o noticiário à hora do costume
os bêbados continuavam bêbados
o cão peidava-se no sofá

tudo estava como
era suposto estar

talvez não haja o que mudar
a gente continua a bater com os cornos na parede
os animais de estimação continuam a ter gases
as canções continuam tristes
(as que valem a pena)
o noticiário continua a dar às oito
e eu continuo na mesma

assim
uma contínua maré de normalidade
e solidão
três ou quatro ou quinze copos de whisky
duas refeições mal feitas
algumas desculpas
(por muito reais que sejam)
para se continuar só
e as notícias na televisão
à hora que sempre passaram
desde que
pela primeira vez
me sentei sozinho