a verdadeira acidez das coisas

falava de coisas ácidas
às formigas que se passeavam pelo pátio

dizia que não comia morangos
porque me magoavam a língua
que não bebia a limonada da avó
porque me irritava a garganta
que não fazia mil e uma merdas
porque me feriam
os olhos
a boca
a cabeça
a pila
o coração

agora
que já como morangos
e bebo limonada
e faço mil e uma merdas
guardo caixas
bem escondidas no meu armário
para as quais me custa olhar
por não as conseguir tirar de lá

essas corroem
para lá do físico
e se calhar é por isso
que ainda não lhes consegui falar
sobre a verdadeira acidez das coisas

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fraga do puio

era aqui que me esperava
naqueles navegares diurnos
pelo que não existe
onde espumava pela boca
e corria desenfreadamente
até algum lugar
irreal
julgava eu
até te ver

era aqui que me esperava
para onde fugia dos lábios que me matavam
e me reunia comigo mesmo
numa eterna ânsia de que tudo parasse
por um segundo
era aqui
onde tudo existia sem pesar
aquele falso local
julgava eu
até te ver

era aqui que me esperava
e é para aqui que me traz a mente
quando mente
aqui
ainda bem que te encontrei
começava a pensar que não existias
ou melhor
que eu nunca tivesse existido
para além das imagens que fabrico
quando a merda emerge o corpo
em fantasia