o pequeno conto do nu

Comecei por andar nu, como todos andamos a certo ponto. Apercebi-me, ainda em tenra idade, de que o resto do mundo usava roupas e achei por bem vestir-me também; mas sentia falta da aragem no umbigo, das gotas de chuva nos mamilos, do toque da pedra no pé, do frio nos tomates, e dei por mim despido outra vez.

No outro dia queimei a pila e não me importei, porém ando preocupado porque soube da existência de camisas que protegem o coração em caso de incêndio: uma preocupação explicável para quem sabe que sorri com o calor no peito, mas que não pára de brincar com o fogo quando é hora.

à saída do fojo

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para a colina
cheiro a mar
e o som dos pássaros
que se movem ininterruptamente
pelo céu

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para as árvores
cheiro a tabaco
e o som das cadeiras
que rangem incessantemente
no pátio

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para os lençóis
cheiro a limão e gasolina
e o som das gotas
que caem intermitentemente
do lado de lá do quarto

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para nada
cheiro a nada
e nenhum som
a ecoar nos azulejos
da casa que alberga
a liberdade e a calma

true blue

true blue
lurks in the corners
when the boys get together to drink
and waits
patiently
for the lonesome moment of departure
to wrap his filthy hands around any of them

true blue
with the yellow eyes
anxiously knocks on her bedroom door
wants to tell her the truth
about living alone

true blue
the sadist
that hides in the bushes
waiting for boys and girls to grow up
masturbating to the sound of lost innocence
contemplating the grey pubes of lady Marcy
that used to be happy
fornicating the men and women
that learn from exaggerated stories
what they should’ve learned by themselves
or mom and dad
or teacher
devil and god
equally inexistant within the terms of current logic

true blue
the annihilator
true blue
the wise
true blue
the ridiculous truth of our sexual encounters
true blue
the cabin in which I long to rest my bones
true blue
the bipolar
true blue
the dominatrix of our once pure hearts
true blue
true you
blue you
true blue
the tears that travel from eyes to feet
every night I sleep by my lonesome

whenever I try to lose you
true blue
you find a way to slither back inside
forcing me to contemplate sadness
in the most peculiar way

whenever I stroll down the avenues at night
hoping for the difference sunlight brings
I end up chained to a bar stool with you
true blue
pissing red and green away
making solitude the only love story I find comfort on

and if you are the one I should marry
let’s get on with it
so I can stop having wet lucid dreams
about colors that don’t exist
anymore

bicho do mato

a mãe e o pai
disseram-me que xixi
é na sanita
e eu cumpro essa fórmula
por respeito
e por vezes conveniência

mas quando me apanho só
mijo no chão
quero sentir que tenho escolha
e que não há decisões
assim tão definitivas

a mãe e o pai
disseram-me que o amor
também tem fórmula
que há alguém por aí
que gosta muito de mim
e que vamos morar juntos
e comprar cadeiras
e discutir sobre que chá vamos beber

eu tento cumprir esse formato
por respeito
e por vezes conveniência

mas quando me apanho só
sento-me no chão
e aprecio a falta de aragem no meu quarto
sem cadeiras
a pensar que por acaso esta fórmula
não funciona comigo
porque sou um bicho do mato
com três ou quatro camisas
e que se calhar estou bem
quietinho e caladinho
sem chatear ninguém