o pequeno conto do nu

Comecei por andar nu, como todos andamos a certo ponto. Apercebi-me, ainda em tenra idade, de que o resto do mundo usava roupas e achei por bem vestir-me também; mas sentia falta da aragem no umbigo, das gotas de chuva nos mamilos, do toque da pedra no pé, do frio nos tomates, e dei por mim despido outra vez.

No outro dia queimei a pila e não me importei, porém ando preocupado porque soube da existência de camisas que protegem o coração em caso de incêndio: uma preocupação explicável para quem sabe que sorri com o calor no peito, mas que não pára de brincar com o fogo quando é hora.

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à saída do fojo

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para a colina
cheiro a mar
e o som dos pássaros
que se movem ininterruptamente
pelo céu

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para as árvores
cheiro a tabaco
e o som das cadeiras
que rangem incessantemente
no pátio

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para os lençóis
cheiro a limão e gasolina
e o som das gotas
que caem intermitentemente
do lado de lá do quarto

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para nada
cheiro a nada
e nenhum som
a ecoar nos azulejos
da casa que alberga
a liberdade e a calma

estava a ler frank o’hara no café (diário #10)

três rapazes estão sentados à minha esquerda a fumar cigarros. têm muita papelada em cima da mesa. se tivesse de adivinhar diria que estão a estudar para algum tipo de exame, mas eu não tenho de adivinhar porque estou a vê-los. parecem mais preocupados com o que a Margarida disse ao moço do cabelo oleoso do que com o exame.

dois miúdos com coroas e capas passaram a correr. atrás ia uma senhora (mãe de um deles ou dos dois, com certeza) com um ar mais cansado do que o meu.

à minha frente está um casal de idosos a ter conversas distintas um com o outro. a senhora diz que o cabeleireiro abusou – que cortou demasiado cabelo – e que da próxima vai seguir o conselho da vizinha, que vai ao shopping e nunca sai de lá descontente. o senhor continua indignado com o tempo de confecção das torradas. “quinze minutos? é pão com manteiga!” diz ele. não sei o que achar disto.

à direita do casal está um rapaz que se preocupa demasiado com a estética das suas sobrancelhas e uma senhora mais velha e muito bonita. a senhora tem uma camisa branca e calças de ganga, e parece que está a dar explicações de matemática ao rapaz das sobrancelhas. se ela tivesse sido minha professora se calhar gostava mais de matemática e não estava no café a escrever estas merdas.

ao fundo estão outros quatro rapazes. ao bocado falavam do comprimentos dos calções de um deles. ele que use o que quiser mas realmente aquilo são boxers e não vale a pena dizer que não.

a última mesa ocupada alberga uma família. pai, mãe, filha. tratam-se por “você”. acho isso extremamente impessoal e não deve fazer maravilhas para o ambiente familiar. “o pai acha que sou otária?” foi a pergunta que ficou no ar. calaram-se depois e só falaram para o pai pedir a conta. será que tocaram num ponto sensível? tanta classe e tão poucas palavras.

eu estava a tentar ler o livro do Frank O’Hara que comprei na livraria do costume, mas decidi escrever parvoíces sobre as pessoas da esplanada, já que não se calam um bocadinho. se um dia tiver um café vou ter uma sala dedicada a quem quer beber em silêncio.

fraga do puio

era aqui que me esperava
naqueles navegares diurnos
pelo que não existe
onde espumava pela boca
e corria desenfreadamente
até algum lugar
irreal
julgava eu
até te ver

era aqui que me esperava
para onde fugia dos lábios que me matavam
e me reunia comigo mesmo
numa eterna ânsia de que tudo parasse
por um segundo
era aqui
onde tudo existia sem pesar
aquele falso local
julgava eu
até te ver

era aqui que me esperava
e é para aqui que me traz a mente
quando mente
aqui
ainda bem que te encontrei
começava a pensar que não existias
ou melhor
que eu nunca tivesse existido
para além das imagens que fabrico
quando a merda emerge o corpo
em fantasia

diário #9

Não tenho conseguido escrever. Sento-me à mesa com o caderno aberto, a caneta na mão, e nada. Vou dar uma volta pelo quarteirão, fumo uns cigarros e bebo um café à beira do jardim. Puxo uma vez mais do caderno, da caneta, e nada. Bebo uma garrafa de vinho quando a lua acompanha o vício, continuo nessa demanda até te ver em todo o lado. Agarro no caderno, na caneta, e nada. Foda-se.

 

encontrei em ti
o tempo e a calma
de braço dado
a contar tostões para comprar
broas de mel

nunca mais os vi passar
por mim
desde que foste
até ao Japão a pé
(suponho que foste
porque nunca mais te vi também)

 

Isto foi o máximo. Em duas semanas, quase três. Talvez seja porque tenho andado pior da saúde. Há quem tome constantemente o “paracetamol dos dias” e ande para a frente como deve de ser, mas eu não consigo. Essa porcaria dá-me vómitos e tenho de me resignar ao facto de existirem certos assuntos que me inquietam de uma maneira debilitante.

ano velho de bigode

O último dia do ano. A última bolacha do pacote. A altura em que, cansados, tentamos juntar forças, três ou quatro tostões e umas garrafas de vinho para pedir com muita força que tudo seja diferente para o ano que virá. Acho mesmo piada ao ano novo. Uma graça um bocado mórbida. É que o “ano novo” é o “ano velho” de bigode, só que, de qualquer forma, teimamos em achar que vai ser tudo drasticamente diferente. Como se, ao tocar o sininho, entrássemos num universo paralelo onde aquelas parvoíces que pensamos ao comer as uvas se tornassem todas verdade (sim, digo parvoíces porque aposto que muitos [como eu] apenas pensam “por favor, que haja menos merda; que haja só menos merda”). Isso não acontece; por isso é que muita gente escolhe passar a meia-noite com uma ramada de alto nível: para não se lembrarem que o que aí vem não passa de uma extensão do que já foi, por isso não pode ser assim tão diferente – nem que ganhem o Euromilhões.

Achamos sempre que tudo vai mudar, está na nossa natureza. Queremos melhor, mais, de outro modo, porque nunca nos contentamos com o que temos. Acreditamos que há sempre espaço para desenvolvimento, até ao dia em que perdemos um bocado a esperança e passamos a passear pelo mundo em vez de ter aquele “brilhozinho nos olhos”, como falava o Sérgio Godinho – e esse dia pode chegar mais cedo ou mais tarde, mas penso que chega. Não tenho desejos ou resoluções para 2019. Vou só esperar, como todos nós mas sem mentir. Vou continuar a passear.

Feliz ano velho de bigode e levantem esse copo bem alto, que por umas horas pode ser que se esqueçam do que se quiserem esquecer.

diário #8

O filme The Purge (2013) de James DeMonaco fala-nos de uma sociedade distópica americana onde, durante 12 horas num ano, todo o crime é legal (excepto contra oficiais do governo) e toda a gente pode fazer o que quiser. Porque é que estou a falar deste filme? Porque (nunca generalizando) vejo o Natal mais ou menos da mesma forma: durante um momento no tempo toda a gente é muito simpática, maravilhosa, atenciosa e preocupada com o mundo. Uma “purga” ao contrário, se assim preferirem. Não sou fã do Natal, desculpem, mas é por razões bastante óbvias para mim. Em parte é um exercício ligeiramente hipócrita para algumas pessoas se sentirem bem consigo próprias.

“Mas olha que tu quando eras pequenino até gostavas muito do Natal!”

Quando eu era pequenino também achava que o Jardel era o melhor jogador de futebol de sempre e que o Michael Jackson era literalmente imortal; quer seja pela coca ou pela cova acabei por ser provado errado. Quem diria que o conhecimento e o interesse pelas coisas nos leva a mudar de opinião de vez em quando?

Tanto respeito o Natal que o celebro com a minha família, no entanto não posso deixar de, pela primeira vez, escrever numa página que não preciso que os dias 24 e 25 de dezembro me relembrem de quem amo; desses lembro-me todos os dias. E se é de bom tom oferecer alguma coisa a quem se ama ou gosta nestes particulares dias, também o é no resto deles – caso achem que para demonstrar amor ou afecto seja efectivamente necessário esbanjar caroço, porque no meu entender há coisas mais importantes. Mesmo assim cumpro o protocolo, sabendo que deixa os que amo felizes – pelo menos em parte.

Neste Natal lembrem-se que existe o resto do ano para serem bons para quem acarinham. Neste Natal lembrem-se que se alguém gostar mais de vocês por causa do porta-chaves que lhe compraram, é porque gostam mais das coisas do que da vossa pessoa. Neste Natal lembrem-se que “a purga” é distopia, e nada muda por um dia. Neste Natal lembrem-se que o Papai Noel é só vermelho por causa da Coca-Cola, e que isto são basicamente umas férias para sustentar comércios e materialidades. Neste Natal lembrem-se de quem amam, estejam gratos por estarem juntos (se estiverem) mas percebam, de uma vez por todas, que não é pela merda do bacalhau e do bolo-rei que a gente se junta – e que, se for, alguma coisa está profundamente errada.

Feliz Natal, ou o que preferirem. Longe de mim querer mal a alguém.


Ho Ho “Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
The world is holy! The soul is holy! The skin is holy! The nose is holy! The tongue and cock and hand and asshole holy!
Everything is holy! everybody’s holy! everywhere is holy! everyday is in eternity! Everyman’s an angel!
The bum’s as holy as the seraphim! the madman is holy as you my soul are holy!
The typewriter is holy the poem is holy the voice is holy the hearers are holy the ecstasy is holy!
Holy Peter holy Allen holy Solomon holy Lucien holy Kerouac holy Huncke holy Burroughs holy Cassady holy the unknown buggered and suffering beggars holy the hideous human angels!
Holy my mother in the insane asylum! Holy the cocks of the grandfathers of Kansas!
Holy the groaning saxophone! Holy the bop apocalypse! Holy the jazzbands marijuana hipsters peace peyote pipes & drums!
Holy the solitudes of skyscrapers and pavements! Holy the cafeterias filled with the millions! Holy the mysterious rivers of tears under the streets!
Holy the lone juggernaut! Holy the vast lamb of the middleclass! Holy the crazy shepherds of rebellion! Who digs Los Angeles IS Los Angeles!
Holy New York Holy San Francisco Holy Peoria & Seattle Holy Paris Holy Tangiers Holy Moscow Holy Istanbul!
Holy time in eternity holy eternity in time holy the clocks in space holy the fourth dimension holy the fifth International holy the Angel in Moloch!
Holy the sea holy the desert holy the railroad holy the locomotive holy the visions holy the hallucinations holy the miracles holy the eyeball holy the abyss!
Holy forgiveness! mercy! charity! faith! Holy! Ours! bodies! suffering! magnanimity!
Holy the supernatural extra brilliant intelligent kindness of the soul!”
Footnote to Howl, Allen Ginsberg
Berkeley, 1955
Há coisas que foram ditas/escritas e que servem de consolo em certas ocasiões, quando deviam servir de lição para o resto do nosso tempo.

vozes

as vozes

pequeno burburinho
a tactear-me a nuca
apoiado com os dois braços
no banco onde me sento
seguro de si
para que não me sinta
seguro de nada
a bafejar aquele fétido aroma
a chumbo

por onde
aos pares
anda o mundo
ando eu acocorado
para que passe ao lado o dia
qualquer dia
para que
se me encontrarem
seja fácil dizer que estou à procura
de alguma coisa
muito pequena
quase invisível
mesmo estando eu a tentar passar
despercebido
ao lado dela

a hecatombe da vertiginosa audácia de vidro
a redonda e vilipendiosa taça
por onde os meus lábios passeiam
grita para que me esconda

eu obedeço
sem colocar qualquer questão

às vozes

diário #7

Passei grande parte do dia a ouvir o Polka Dots and Moonbeams, do Bill Evans. Foi o primeiro álbum gravado depois da morte do Scott LaFaro, cúmplice eterno do Bill. Baladas atrás de baladas. Foda-se. Porque é que as baladas me fazem mais sentido que o resto das músicas? Tive esta conversa ontem: gostava que a felicidade me fizesse sentido, na extensão mais abrangente da palavra. Assim ia jantar fora com uma garota e não pensava “merda, quanto tempo é que vai demorar até se aperceber que não valho o esforço?”. Assim, se calhar, nem teria de ir jantar fora com uma garota. Sei lá. É tudo tão simples para os outros, se olharmos de esguelha.

I Fall in Love Too Easily destrói-me sempre que a ouço. Seja a versão que for. Parece escrita para mim. Parece que o Jule Styne pensou que haveria um gajo que fosse parvo o suficiente para acreditar em todas as palavras que o Sammy Cahn escreveu, e por isso fez uma melodia igualmente parva. Acho que é por isso que gosto tanto do Anchors Aweigh. Não por causa do Sinatra e do Kelly a contracenarem. Por causa da porcaria daquela música.

Passo o dia a ouvir destas músicas e a pensar sobre coisas várias, e depois perguntam-me se está tudo bem. Que raio de pergunta é “está tudo bem”? Não. Não está. Dificilmente estará, como qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe (a não ser que não olhe para as coisas com “olhos de ver” – como diz a minha mãe).

diário #6

Dei por mim a ponderar sobre uma coisa que o meu pai diz muitas vezes. “É melhor do que um chuto no cú“. O paradigma, neste caso, estabelece que quase tudo é melhor do que um chuto no cú, o que não está totalmente mal, mas acho que há coisas piores para chutar. “É melhor do que um chuto na pureza” foi o que de melhor consegui. É que quando levas um chuto no cú a dor acaba por desaparecer, mas quando, inevitavelmente, levas um pontapé em cheio na pureza, não voltas atrás. Vou começar a usar a frase.

As minhas irmãs fazem anos amanhã. As minhas irmãs deviam ter estátuas à porta do mundo, porque são seres com uma paciência inabalável para levar com as minhas merdas. As minhas irmãs também lêem muitos livros e ouvem muitas músicas, e são mais inteligentes que eu. Se não fossem as minhas irmãs eu, provavelmente, usava chapéus virados do avesso, não ia ao cinema, não ouvia música por gosto, lia livros motivacionais escritos por senhores e senhoras que não têm interesse nenhum, achava a arte uma parvoíce, não sabia ser uma pessoa (ou lá o que é isto que eu ando para aqui a fazer) e passaria a ser mais um bonequinho automatizado que procura respostas nos outros.

Há muitos textos sentimentais sobre a beleza das relações entre irmãos; não me dizem nada, porque eles não sabem o que é ter irmãs como as minhas. “Ah, mas isso dizes tu porque são as tuas irmãs e não conheces outras“. Quero lá saber. Sou egoísta a esse ponto.

“Mas porque é que puseste um parágrafo sobre chutos na pureza e no cú, com uma mensagem para as tuas irmãs?”

Porque, nos meus olhos, a elas ninguém lhes pontapeia a pureza. E quem ousar, leva um chuto no cú, porque puros já não são.