Escandinávia e as cartas

1.

Nunca fui à Escandinávia, mas parece-me um sítio que me preencheria as medidas.

Gostava, porém, de não me sentir assim em relação à Escandinávia. Gostava de ter a certeza que nunca veria os fiordes, a pequena sereia e as estátuas de Freyja e Thor.

Assim, Águas Santas continuaria a ser o sonho de uma vida, e não perderia tempo a pensar sobre sítios longínquos.

2.

Se pudesse não falava: escreveria cartas à mão.

É que quando escrevemos uma carta com a nossa própria letra, sangue e suor, pensamos em tudo o que queremos dizer e utilizamos o tempo para passar isso para um papel bonito, com a dedicação de quem quer comunicar com alguém genuinamente; já falar requer um imediatismo que não corre sempre bem para quem tem três toneladas de emoções a fluir pela garganta (já para não falar das mensagens, que sofrem de um imediatismo ainda pior, para mim – um mais impessoal e impaciente). Quero que as minhas emoções se organizem. Que façam uma filinha pirilau, saiam direitinhas da minha mão e terminem com uma despedida cordial.

Digníssimos,

Quero apenas dizer o que sinto, mas levo tempo a enxotar as moscas e os demónios da minha cabeça.

Escrever é mais fácil para mim.

Cordialmente,
Sérgio Morais 

apontamentos 14/1/20

1.

Andei a passear dois hambúrgueres na minha mochila, que lá se encontravam para me matar a fome caso aparecesse. Se tivessem olhos de certo perderiam o apetite ao ver as paisagens do lado de lá da janela do comboio, como eu vi.

Por isso é que não comi:
Deixei-me levar pelas árvores.

2.

Gosto de pensar que não passo de um miúdo parvo que olha para laranjas com uma certa dedicação. A mesma que o Homem usa para olhar para tabelas com números ou códigos num ecrã porreiro.

A dedicação que me permite olhar para uma laranja e ver o mundo todo, uma lua distante ou os tomates de um gigante.

3.

a vida num círculo
voltar à rotina
para que não me esqueça de
voltar à rotina
a vida num círculo

pisar o caminho
como se fosse novo
sem ver o lixo
como se fosse novo
pisar o caminho

andar às voltinhas
para sempre
andar às voltinhas

apontamentos 7/1/20

1.

Olhar para dentro é de evitar, ou assim me mostram alguns falantes.

Evitar olhar para dentro, mas dizer que se mora lá há muitos anos, muitas vezes.

2.

Acho alguns risos risíveis. Aqueles risos redondos e farfalhudos, como os dos magnatas nos filmes, por exemplo.

Acho, também, alguns choros risíveis. Aqueles que ensinam uma lição a quem pensa ser maior que o mundo, como os dos magnatas nos filmes, por exemplo.

3.

O Orwell dizia que os escritores são seres egocêntricos, que fazem o que fazem para tentar provar alguma coisa a si próprios (entre outras razões) e que negá-lo é estapafúrdio.

Concordo. No final de contas, escrevo para provar a mim mesmo que consigo pagar uma laranjada e uma torrada em pão saloio com meia dúzia de poemas.

apontamentos 1/1/20

1.

Na primeira noite do ano não passava um carro pela avenida. São estas noites sossegadas que me relembram que há luzes que ainda amo na cidade.

2.

Estava sentado na esplanada de um café e uma mulher, do outro lado da estrada, olhava para uma porta com uma dedicação imensa. Não consegui perceber se viu o passado naquela entrada ou se, de alguma forma, naquele momento o tempo não importasse: como se fosse o derradeiro presente.

De qualquer das formas é triste que uma porta faça alguém passar por tamanha quietude.

3.

aprender

a saltar à corda

não às conclusões

apontamentos 27/12/19

1.

Por ouvir a gente a falar às vezes pensamos não ser possível viver sem certas coisas: um carro, o telemóvel ou equipamentos do género.

Acho piada por perceber que a electrónica tomou o lugar do amor.

2.

Matei uma formiga com a minha caneta e prometo que  foi sem querer. Prometo porque já matei outras de propósito e sei qual é a sensação, mas com este assassinato não contava.

Doeu um pouco matar a vida com algo que gosto, no entanto até faz sentido.

3.

Tinha escrito “puta que te pariu” numa folha do meu caderno e não sabia porquê, mas hoje fui mordido por um mosquito e andei quarenta e cinto minutos à procura do sacana, o que me fez lembrar (no fim da busca) que aquela é a minha frase de desistência e que os mosquitos me pioram as insónias.

diário #11

Hoje conversei (como qualquer bom amante) sobre trânsito intestinal, rabos e chambão de borrego. Este último chamou-me a atenção porque, como tenho estado com o tempo demasiado ocupado a fazer flores em cafés, as minhas ideias acabam por ser osso com pouca carne – como o chambão de um borrego.

“Que achas deste início que me deste?” perguntei.

Ela achou curioso mas eu achei uma bela porcaria. Não que essas três temáticas não sejam boas ou importantes, mas tenho andado com uma predisposição parva para não gostar de nada que me saia das mãos, a não ser que seja alguma bebida com bourbon, enfiada num shaker qualquer e enfeitado como os ramos que se dá à madrinha uma vez por ano.

Fiquei parado na ideia de dar um início a alguém. Não apenas na perspectiva de ajudar alguém a começar um texto desnecessário às onze e cinquenta e oito da noite; dar um início como quem cura feridas e quase que dá um corpo novo ao moribundo. Torna a pergunta bem mais interessante.

“Que achas deste início que me deste?”

É que eu não estava à espera, mas fico-te eternamente grato.

o pequeno conto do nu

Comecei por andar nu, como todos andamos a certo ponto. Apercebi-me, ainda em tenra idade, de que o resto do mundo usava roupas e achei por bem vestir-me também; mas sentia falta da aragem no umbigo, das gotas de chuva nos mamilos, do toque da pedra no pé, do frio nos tomates, e dei por mim despido outra vez.

No outro dia queimei a pila e não me importei, porém ando preocupado porque soube da existência de camisas que protegem o coração em caso de incêndio: uma preocupação explicável para quem sabe que sorri com o calor no peito, mas que não pára de brincar com o fogo quando é hora.

à saída do fojo

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para a colina
cheiro a mar
e o som dos pássaros
que se movem ininterruptamente
pelo céu

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para as árvores
cheiro a tabaco
e o som das cadeiras
que rangem incessantemente
no pátio

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para os lençóis
cheiro a limão e gasolina
e o som das gotas
que caem intermitentemente
do lado de lá do quarto

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para nada
cheiro a nada
e nenhum som
a ecoar nos azulejos
da casa que alberga
a liberdade e a calma

o lugar dela

para a inauguração da exposição
do coletivo Mitose
27/04/19

I: Ele

é no andar de baixo
longe de toda a gente
é na boutique e no armazém atrás da boutique
é perto da sujidade apenas por ser perto da sujidade
é para o outro lado
para onde não te ouçam
é na rua padre Américo Número 102
e é bom que chegues cedo porque não estou para brincadeiras
é naquele quartinho muito pequenino
aquele que não tem janelas
onde não desejava passar dois minutos quanto mais a vida inteira
é à beira do forno
é a calar a miudagem
é a olhar por todos
é comigo
é caladinha
quietinha
é aqui
é assim
porque sim
é comigo porque se não for comigo não é com mais ninguém
não pode ser com mais ninguém
e não digas que não vais com sorte
que ao domingo ainda te levo à missa

só Nosso Senhor sabe o quanto eu sofro
ai se não fosse o vinho
ai se não fosse o cigarrinho depois do café
que seria de mim?

II: Ela

lancei os vestidos ao mar
rasguei as blusas
estraguei os colares
e peguei nos pedacinhos todos para meter na lareira
para te queimar a memória
para me limpar de tristezas

deixei a cadela mijar nos teus sapatos
dei as gravatas ao vizinho
não te engomei camisas
calças
cuecas
meias
não te engomei um caralho
nunca te devia ter engomado ponta de um corno

a miudagem vai para a casa da minha irmã
não interessa para onde eu vou
o que importa realmente
é que o quarto agora tem janela
e é tudo tão bonito lá fora
que nunca mais irei contar as marcas da parede
que nunca mais irei polir o teu cálice
que nunca mais irei fugir de casa
porque nunca mais irei fugir de ti

PS:

deixei arroz para a semana inteira no frigorífico
assim tens tempo para aprender a cozinhar
e não vou mais à missa
já viste a sorte que tu tens?

III: Eu, que nunca lhe cheguei a dizer estas palavras

o lugar dela é um segredo
dos que não se verbalizam
dos imutáveis
e pensar que assim não o é
é para quem não sabe ver
que nos seus olhos nascem rios
que nos seus lábios crescem flores
que na sua pele o sol se põe
que na sua mão cabe todo o mundo

o lugar dela é do seu sorriso
daquele sorriso que posso deixar de ver
mas que de modo algum morrerá
é da sua cabeça
do seu sangue
do seu coração
é da sua memória que
se negra for
é porque houve gente pequena
que não conseguiu acender a luz do quarto

o lugar dela
é dela
e dele só ela sabe
o que me pertence
é apenas
o meu amor

estava a ler frank o’hara no café (diário #10)

três rapazes estão sentados à minha esquerda a fumar cigarros. têm muita papelada em cima da mesa. se tivesse de adivinhar diria que estão a estudar para algum tipo de exame, mas eu não tenho de adivinhar porque estou a vê-los. parecem mais preocupados com o que a Margarida disse ao moço do cabelo oleoso do que com o exame.

dois miúdos com coroas e capas passaram a correr. atrás ia uma senhora (mãe de um deles ou dos dois, com certeza) com um ar mais cansado do que o meu.

à minha frente está um casal de idosos a ter conversas distintas um com o outro. a senhora diz que o cabeleireiro abusou – que cortou demasiado cabelo – e que da próxima vai seguir o conselho da vizinha, que vai ao shopping e nunca sai de lá descontente. o senhor continua indignado com o tempo de confecção das torradas. “quinze minutos? é pão com manteiga!” diz ele. não sei o que achar disto.

à direita do casal está um rapaz que se preocupa demasiado com a estética das suas sobrancelhas e uma senhora mais velha e muito bonita. a senhora tem uma camisa branca e calças de ganga, e parece que está a dar explicações de matemática ao rapaz das sobrancelhas. se ela tivesse sido minha professora se calhar gostava mais de matemática e não estava no café a escrever estas merdas.

ao fundo estão outros quatro rapazes. ao bocado falavam do comprimentos dos calções de um deles. ele que use o que quiser mas realmente aquilo são boxers e não vale a pena dizer que não.

a última mesa ocupada alberga uma família. pai, mãe, filha. tratam-se por “você”. acho isso extremamente impessoal e não deve fazer maravilhas para o ambiente familiar. “o pai acha que sou otária?” foi a pergunta que ficou no ar. calaram-se depois e só falaram para o pai pedir a conta. será que tocaram num ponto sensível? tanta classe e tão poucas palavras.

eu estava a tentar ler o livro do Frank O’Hara que comprei na livraria do costume, mas decidi escrever parvoíces sobre as pessoas da esplanada, já que não se calam um bocadinho. se um dia tiver um café vou ter uma sala dedicada a quem quer beber em silêncio.