o pequeno conto do nu

Comecei por andar nu, como todos andamos a certo ponto. Apercebi-me, ainda em tenra idade, de que o resto do mundo usava roupas e achei por bem vestir-me também; mas sentia falta da aragem no umbigo, das gotas de chuva nos mamilos, do toque da pedra no pé, do frio nos tomates, e dei por mim despido outra vez.

No outro dia queimei a pila e não me importei, porém ando preocupado porque soube da existência de camisas que protegem o coração em caso de incêndio: uma preocupação explicável para quem sabe que sorri com o calor no peito, mas que não pára de brincar com o fogo quando é hora.

estava a ler frank o’hara no café (diário #10)

três rapazes estão sentados à minha esquerda a fumar cigarros. têm muita papelada em cima da mesa. se tivesse de adivinhar diria que estão a estudar para algum tipo de exame, mas eu não tenho de adivinhar porque estou a vê-los. parecem mais preocupados com o que a Margarida disse ao moço do cabelo oleoso do que com o exame.

dois miúdos com coroas e capas passaram a correr. atrás ia uma senhora (mãe de um deles ou dos dois, com certeza) com um ar mais cansado do que o meu.

à minha frente está um casal de idosos a ter conversas distintas um com o outro. a senhora diz que o cabeleireiro abusou – que cortou demasiado cabelo – e que da próxima vai seguir o conselho da vizinha, que vai ao shopping e nunca sai de lá descontente. o senhor continua indignado com o tempo de confecção das torradas. “quinze minutos? é pão com manteiga!” diz ele. não sei o que achar disto.

à direita do casal está um rapaz que se preocupa demasiado com a estética das suas sobrancelhas e uma senhora mais velha e muito bonita. a senhora tem uma camisa branca e calças de ganga, e parece que está a dar explicações de matemática ao rapaz das sobrancelhas. se ela tivesse sido minha professora se calhar gostava mais de matemática e não estava no café a escrever estas merdas.

ao fundo estão outros quatro rapazes. ao bocado falavam do comprimentos dos calções de um deles. ele que use o que quiser mas realmente aquilo são boxers e não vale a pena dizer que não.

a última mesa ocupada alberga uma família. pai, mãe, filha. tratam-se por “você”. acho isso extremamente impessoal e não deve fazer maravilhas para o ambiente familiar. “o pai acha que sou otária?” foi a pergunta que ficou no ar. calaram-se depois e só falaram para o pai pedir a conta. será que tocaram num ponto sensível? tanta classe e tão poucas palavras.

eu estava a tentar ler o livro do Frank O’Hara que comprei na livraria do costume, mas decidi escrever parvoíces sobre as pessoas da esplanada, já que não se calam um bocadinho. se um dia tiver um café vou ter uma sala dedicada a quem quer beber em silêncio.

diário #9

Não tenho conseguido escrever. Sento-me à mesa com o caderno aberto, a caneta na mão, e nada. Vou dar uma volta pelo quarteirão, fumo uns cigarros e bebo um café à beira do jardim. Puxo uma vez mais do caderno, da caneta, e nada. Bebo uma garrafa de vinho quando a lua acompanha o vício, continuo nessa demanda até te ver em todo o lado. Agarro no caderno, na caneta, e nada. Foda-se.

 

encontrei em ti
o tempo e a calma
de braço dado
a contar tostões para comprar
broas de mel

nunca mais os vi passar
por mim
desde que foste
até ao Japão a pé
(suponho que foste
porque nunca mais te vi também)

 

Isto foi o máximo. Em duas semanas, quase três. Talvez seja porque tenho andado pior da saúde. Há quem tome constantemente o “paracetamol dos dias” e ande para a frente como deve de ser, mas eu não consigo. Essa porcaria dá-me vómitos e tenho de me resignar ao facto de existirem certos assuntos que me inquietam de uma maneira debilitante.

ano velho de bigode

O último dia do ano. A última bolacha do pacote. A altura em que, cansados, tentamos juntar forças, três ou quatro tostões e umas garrafas de vinho para pedir com muita força que tudo seja diferente para o ano que virá. Acho mesmo piada ao ano novo. Uma graça um bocado mórbida. É que o “ano novo” é o “ano velho” de bigode, só que, de qualquer forma, teimamos em achar que vai ser tudo drasticamente diferente. Como se, ao tocar o sininho, entrássemos num universo paralelo onde aquelas parvoíces que pensamos ao comer as uvas se tornassem todas verdade (sim, digo parvoíces porque aposto que muitos [como eu] apenas pensam “por favor, que haja menos merda; que haja só menos merda”). Isso não acontece; por isso é que muita gente escolhe passar a meia-noite com uma ramada de alto nível: para não se lembrarem que o que aí vem não passa de uma extensão do que já foi, por isso não pode ser assim tão diferente – nem que ganhem o Euromilhões.

Achamos sempre que tudo vai mudar, está na nossa natureza. Queremos melhor, mais, de outro modo, porque nunca nos contentamos com o que temos. Acreditamos que há sempre espaço para desenvolvimento, até ao dia em que perdemos um bocado a esperança e passamos a passear pelo mundo em vez de ter aquele “brilhozinho nos olhos”, como falava o Sérgio Godinho – e esse dia pode chegar mais cedo ou mais tarde, mas penso que chega. Não tenho desejos ou resoluções para 2019. Vou só esperar, como todos nós mas sem mentir. Vou continuar a passear.

Feliz ano velho de bigode e levantem esse copo bem alto, que por umas horas pode ser que se esqueçam do que se quiserem esquecer.

diário #8

O filme The Purge (2013) de James DeMonaco fala-nos de uma sociedade distópica americana onde, durante 12 horas num ano, todo o crime é legal (excepto contra oficiais do governo) e toda a gente pode fazer o que quiser. Porque é que estou a falar deste filme? Porque (nunca generalizando) vejo o Natal mais ou menos da mesma forma: durante um momento no tempo toda a gente é muito simpática, maravilhosa, atenciosa e preocupada com o mundo. Uma “purga” ao contrário, se assim preferirem. Não sou fã do Natal, desculpem, mas é por razões bastante óbvias para mim. Em parte é um exercício ligeiramente hipócrita para algumas pessoas se sentirem bem consigo próprias.

“Mas olha que tu quando eras pequenino até gostavas muito do Natal!”

Quando eu era pequenino também achava que o Jardel era o melhor jogador de futebol de sempre e que o Michael Jackson era literalmente imortal; quer seja pela coca ou pela cova acabei por ser provado errado. Quem diria que o conhecimento e o interesse pelas coisas nos leva a mudar de opinião de vez em quando?

Tanto respeito o Natal que o celebro com a minha família, no entanto não posso deixar de, pela primeira vez, escrever numa página que não preciso que os dias 24 e 25 de dezembro me relembrem de quem amo; desses lembro-me todos os dias. E se é de bom tom oferecer alguma coisa a quem se ama ou gosta nestes particulares dias, também o é no resto deles – caso achem que para demonstrar amor ou afecto seja efectivamente necessário esbanjar caroço, porque no meu entender há coisas mais importantes. Mesmo assim cumpro o protocolo, sabendo que deixa os que amo felizes – pelo menos em parte.

Neste Natal lembrem-se que existe o resto do ano para serem bons para quem acarinham. Neste Natal lembrem-se que se alguém gostar mais de vocês por causa do porta-chaves que lhe compraram, é porque gostam mais das coisas do que da vossa pessoa. Neste Natal lembrem-se que “a purga” é distopia, e nada muda por um dia. Neste Natal lembrem-se que o Papai Noel é só vermelho por causa da Coca-Cola, e que isto são basicamente umas férias para sustentar comércios e materialidades. Neste Natal lembrem-se de quem amam, estejam gratos por estarem juntos (se estiverem) mas percebam, de uma vez por todas, que não é pela merda do bacalhau e do bolo-rei que a gente se junta – e que, se for, alguma coisa está profundamente errada.

Feliz Natal, ou o que preferirem. Longe de mim querer mal a alguém.


Ho Ho “Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
The world is holy! The soul is holy! The skin is holy! The nose is holy! The tongue and cock and hand and asshole holy!
Everything is holy! everybody’s holy! everywhere is holy! everyday is in eternity! Everyman’s an angel!
The bum’s as holy as the seraphim! the madman is holy as you my soul are holy!
The typewriter is holy the poem is holy the voice is holy the hearers are holy the ecstasy is holy!
Holy Peter holy Allen holy Solomon holy Lucien holy Kerouac holy Huncke holy Burroughs holy Cassady holy the unknown buggered and suffering beggars holy the hideous human angels!
Holy my mother in the insane asylum! Holy the cocks of the grandfathers of Kansas!
Holy the groaning saxophone! Holy the bop apocalypse! Holy the jazzbands marijuana hipsters peace peyote pipes & drums!
Holy the solitudes of skyscrapers and pavements! Holy the cafeterias filled with the millions! Holy the mysterious rivers of tears under the streets!
Holy the lone juggernaut! Holy the vast lamb of the middleclass! Holy the crazy shepherds of rebellion! Who digs Los Angeles IS Los Angeles!
Holy New York Holy San Francisco Holy Peoria & Seattle Holy Paris Holy Tangiers Holy Moscow Holy Istanbul!
Holy time in eternity holy eternity in time holy the clocks in space holy the fourth dimension holy the fifth International holy the Angel in Moloch!
Holy the sea holy the desert holy the railroad holy the locomotive holy the visions holy the hallucinations holy the miracles holy the eyeball holy the abyss!
Holy forgiveness! mercy! charity! faith! Holy! Ours! bodies! suffering! magnanimity!
Holy the supernatural extra brilliant intelligent kindness of the soul!”
Footnote to Howl, Allen Ginsberg
Berkeley, 1955
Há coisas que foram ditas/escritas e que servem de consolo em certas ocasiões, quando deviam servir de lição para o resto do nosso tempo.

diário #7

Passei grande parte do dia a ouvir o Polka Dots and Moonbeams, do Bill Evans. Foi o primeiro álbum gravado depois da morte do Scott LaFaro, cúmplice eterno do Bill. Baladas atrás de baladas. Foda-se. Porque é que as baladas me fazem mais sentido que o resto das músicas? Tive esta conversa ontem: gostava que a felicidade me fizesse sentido, na extensão mais abrangente da palavra. Assim ia jantar fora com uma garota e não pensava “merda, quanto tempo é que vai demorar até se aperceber que não valho o esforço?”. Assim, se calhar, nem teria de ir jantar fora com uma garota. Sei lá. É tudo tão simples para os outros, se olharmos de esguelha.

I Fall in Love Too Easily destrói-me sempre que a ouço. Seja a versão que for. Parece escrita para mim. Parece que o Jule Styne pensou que haveria um gajo que fosse parvo o suficiente para acreditar em todas as palavras que o Sammy Cahn escreveu, e por isso fez uma melodia igualmente parva. Acho que é por isso que gosto tanto do Anchors Aweigh. Não por causa do Sinatra e do Kelly a contracenarem. Por causa da porcaria daquela música.

Passo o dia a ouvir destas músicas e a pensar sobre coisas várias, e depois perguntam-me se está tudo bem. Que raio de pergunta é “está tudo bem”? Não. Não está. Dificilmente estará, como qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe (a não ser que não olhe para as coisas com “olhos de ver” – como diz a minha mãe).

diário #5

Quando não me sinto bem fico em casa. O problema de ficar em casa quando não me sinto bem é que, com o tempo que tenho para pensar e escrever, acabo por ficar pior da cabeça, mesmo que fique melhor do corpo. De um momento para o outro todo o carro que passa na rua é uma flecha a trespassar-me o ouvido, todo o toque do sapato no andar de cima é um sem-fim de alarmes colados à testa, todo o pedido é demais. Não é como se pudesse evitar; sei lá como é que isto se processa. Por isso é que a merda da cabana não me sai da cabeça.

“Ah mas estás a dizer isso porque não sabes o que é realmente viver sozinho”, “isso é só picuisse”, “não sabes do que falas”.

Sim, porque eu sou o primeiro a não querer viver rodeado de mentiras e caos. Deixem-se é de paternalismos. É tudo muito lindo, se é isso que querem ouvir, mas deixem-me em paz. A realidade é que eu gosto muito de muita gente, e muita coisa; mas também gosto bastante do meu sossego e do meu silêncio. Acima de tudo adoro a minha sanidade, que se vai deteriorando com este barulho todo.

Ontem revi o Howl com o James Franco. Acho que ele faz um papel do caraças, e que a temática é extremamente importante. O Ginsberg não era só um boémio, homossexual e um drogado, como pinta a mente pequena; era e é um marco da luta pela liberdade de expressão e pela validação artística fora dos cânones, no campo da literatura. Se calhar está na altura de algumas pessoas lerem um bocado sobre a beat generation (que não existe) e perceberem que a mensagem de nada tem a ver com algumas atitudes pelas quais ficaram conhecidos. Eu gostava de ter metade dos tomates desses degenerados. Se calhar era mais feliz.

Acho que hoje estou numa de ver um filme parvo. Do género das Tartarugas Ninja ou assim. E beber chá; estou numa de beber chá. Provavelmente de gengibre, para ver se me passa esta dor de garganta. Não que ande a fazer nada de inapropriado com a garganta, para além de falar quando devia estar calado.

Quarto 305

Havia um gajo no quarto 305 que saía todos os dias e ia buscar um saco ao meio do mato. Saía, com um cigarro na boca, apagado, e ia buscar um saco ao meio do nada. Saía, cumprimentava a mãe, punha o cigarro na boca, não o acendia e ia buscar um saco ao meio das plantas. Abria a porta, saía, cumprimentava a mãe com dois beijos na cara e um na mão, punha o cigarro na boca, não o acendia, olhava para mim – sentado no café do outro lado da estrada a escrever sobre ele – e ia buscar um saco escondido no meio da vegetação.

Eu sentava-me no café, pedia uma cerveja, tirava o caderno e a caneta, olhava para a porta do prédio, ponderava se ia ver o gajo, via o gajo, escrevia um bocado sobre isso, ficava curioso, ia ver ao meio do mato se havia outro saco e só via plantas, cigarros por fumar e discos e livros e tudo.

Apanhei-o uma vez numa dessas viagens. Disse-lhe o que sabia e perguntei-lhe porque o fazia. Ele disse-me que era difícil levar a verdade até casa, mas não deixou de me dar um soco nos tomates.

a canção das miúdas

As miúdas lá do bairro
Dizem que eu sou mau companheiro
Mas não percebem que o coração
Bate melhor quando está por inteiro

As miúdas fumam no jardim
E eu nem sequer lhes digo nada
Não entendem que não é por mim
Que se apaga a morte na calçada

As miúdas lá do bairro
Querem de mim o que eu não sou
Querem que saiba por onde ir
Sem querer saber para onde vou

cadernos antigos

andei a passear pelos meus cadernos antigos e apercebi-me que eu era um menino bastante teatral; carregado de dúvidas e incertezas sobre a continuidade das coisas. apoiado no exagero emocional para procurar respostas às minhas perguntas.

ainda bem que cresci e evolui para um homem apático, depressivo, idiota, sem paciência e bastante teatral.

morra o turvo, morra! pim!