apontamentos 14/1/20

1.

Andei a passear dois hambúrgueres na minha mochila, que lá se encontravam para me matar a fome caso aparecesse. Se tivessem olhos de certo perderiam o apetite ao ver as paisagens do lado de lá da janela do comboio, como eu vi.

Por isso é que não comi:
Deixei-me levar pelas árvores.

2.

Gosto de pensar que não passo de um miúdo parvo que olha para laranjas com uma certa dedicação. A mesma que o Homem usa para olhar para tabelas com números ou códigos num ecrã porreiro.

A dedicação que me permite olhar para uma laranja e ver o mundo todo, uma lua distante ou os tomates de um gigante.

3.

a vida num círculo
voltar à rotina
para que não me esqueça de
voltar à rotina
a vida num círculo

pisar o caminho
como se fosse novo
sem ver o lixo
como se fosse novo
pisar o caminho

andar às voltinhas
para sempre
andar às voltinhas

apontamentos 7/1/20

1.

Olhar para dentro é de evitar, ou assim me mostram alguns falantes.

Evitar olhar para dentro, mas dizer que se mora lá há muitos anos, muitas vezes.

2.

Acho alguns risos risíveis. Aqueles risos redondos e farfalhudos, como os dos magnatas nos filmes, por exemplo.

Acho, também, alguns choros risíveis. Aqueles que ensinam uma lição a quem pensa ser maior que o mundo, como os dos magnatas nos filmes, por exemplo.

3.

O Orwell dizia que os escritores são seres egocêntricos, que fazem o que fazem para tentar provar alguma coisa a si próprios (entre outras razões) e que negá-lo é estapafúrdio.

Concordo. No final de contas, escrevo para provar a mim mesmo que consigo pagar uma laranjada e uma torrada em pão saloio com meia dúzia de poemas.

apontamentos 1/1/20

1.

Na primeira noite do ano não passava um carro pela avenida. São estas noites sossegadas que me relembram que há luzes que ainda amo na cidade.

2.

Estava sentado na esplanada de um café e uma mulher, do outro lado da estrada, olhava para uma porta com uma dedicação imensa. Não consegui perceber se viu o passado naquela entrada ou se, de alguma forma, naquele momento o tempo não importasse: como se fosse o derradeiro presente.

De qualquer das formas é triste que uma porta faça alguém passar por tamanha quietude.

3.

aprender

a saltar à corda

não às conclusões

rua torta

na minha rua
o passeio
sempre esteve torto

os vizinhos preocupam-se
com a colocação da anca
e com a posição dos tornozelos
dizem que a rua torta
afeta o perfeito caminhar sobre o tempo

mas acho que quem a fez sabe disso
e que há calceteiros
que percebem melhor os dias
do que quem se limita a andar sobre eles

no final de contas
há que pensar sobre o que se pisa
mesmo que não se saiba
por onde se vai

à saída do fojo

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para a colina
cheiro a mar
e o som dos pássaros
que se movem ininterruptamente
pelo céu

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para as árvores
cheiro a tabaco
e o som das cadeiras
que rangem incessantemente
no pátio

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para os lençóis
cheiro a limão e gasolina
e o som das gotas
que caem intermitentemente
do lado de lá do quarto

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para nada
cheiro a nada
e nenhum som
a ecoar nos azulejos
da casa que alberga
a liberdade e a calma

estava a ler frank o’hara no café (diário #10)

três rapazes estão sentados à minha esquerda a fumar cigarros. têm muita papelada em cima da mesa. se tivesse de adivinhar diria que estão a estudar para algum tipo de exame, mas eu não tenho de adivinhar porque estou a vê-los. parecem mais preocupados com o que a Margarida disse ao moço do cabelo oleoso do que com o exame.

dois miúdos com coroas e capas passaram a correr. atrás ia uma senhora (mãe de um deles ou dos dois, com certeza) com um ar mais cansado do que o meu.

à minha frente está um casal de idosos a ter conversas distintas um com o outro. a senhora diz que o cabeleireiro abusou – que cortou demasiado cabelo – e que da próxima vai seguir o conselho da vizinha, que vai ao shopping e nunca sai de lá descontente. o senhor continua indignado com o tempo de confecção das torradas. “quinze minutos? é pão com manteiga!” diz ele. não sei o que achar disto.

à direita do casal está um rapaz que se preocupa demasiado com a estética das suas sobrancelhas e uma senhora mais velha e muito bonita. a senhora tem uma camisa branca e calças de ganga, e parece que está a dar explicações de matemática ao rapaz das sobrancelhas. se ela tivesse sido minha professora se calhar gostava mais de matemática e não estava no café a escrever estas merdas.

ao fundo estão outros quatro rapazes. ao bocado falavam do comprimentos dos calções de um deles. ele que use o que quiser mas realmente aquilo são boxers e não vale a pena dizer que não.

a última mesa ocupada alberga uma família. pai, mãe, filha. tratam-se por “você”. acho isso extremamente impessoal e não deve fazer maravilhas para o ambiente familiar. “o pai acha que sou otária?” foi a pergunta que ficou no ar. calaram-se depois e só falaram para o pai pedir a conta. será que tocaram num ponto sensível? tanta classe e tão poucas palavras.

eu estava a tentar ler o livro do Frank O’Hara que comprei na livraria do costume, mas decidi escrever parvoíces sobre as pessoas da esplanada, já que não se calam um bocadinho. se um dia tiver um café vou ter uma sala dedicada a quem quer beber em silêncio.

14/02

acaba por ser um dia como os outros
sou capaz de passar mais tempo no bar
talvez aventurar-me no devil’s cut
ou no grey goose
parceiros que se fazem
nos passeios pela cidade
em dias que não significam nada
mas que me relembram de tudo

talvez tire
finalmente
a tua fotografia da minha carteira
ou se calhar não lhe mexo
que assim compro chocolates a fantasmas

não sei

 

diário #8

O filme The Purge (2013) de James DeMonaco fala-nos de uma sociedade distópica americana onde, durante 12 horas num ano, todo o crime é legal (excepto contra oficiais do governo) e toda a gente pode fazer o que quiser. Porque é que estou a falar deste filme? Porque (nunca generalizando) vejo o Natal mais ou menos da mesma forma: durante um momento no tempo toda a gente é muito simpática, maravilhosa, atenciosa e preocupada com o mundo. Uma “purga” ao contrário, se assim preferirem. Não sou fã do Natal, desculpem, mas é por razões bastante óbvias para mim. Em parte é um exercício ligeiramente hipócrita para algumas pessoas se sentirem bem consigo próprias.

“Mas olha que tu quando eras pequenino até gostavas muito do Natal!”

Quando eu era pequenino também achava que o Jardel era o melhor jogador de futebol de sempre e que o Michael Jackson era literalmente imortal; quer seja pela coca ou pela cova acabei por ser provado errado. Quem diria que o conhecimento e o interesse pelas coisas nos leva a mudar de opinião de vez em quando?

Tanto respeito o Natal que o celebro com a minha família, no entanto não posso deixar de, pela primeira vez, escrever numa página que não preciso que os dias 24 e 25 de dezembro me relembrem de quem amo; desses lembro-me todos os dias. E se é de bom tom oferecer alguma coisa a quem se ama ou gosta nestes particulares dias, também o é no resto deles – caso achem que para demonstrar amor ou afecto seja efectivamente necessário esbanjar caroço, porque no meu entender há coisas mais importantes. Mesmo assim cumpro o protocolo, sabendo que deixa os que amo felizes – pelo menos em parte.

Neste Natal lembrem-se que existe o resto do ano para serem bons para quem acarinham. Neste Natal lembrem-se que se alguém gostar mais de vocês por causa do porta-chaves que lhe compraram, é porque gostam mais das coisas do que da vossa pessoa. Neste Natal lembrem-se que “a purga” é distopia, e nada muda por um dia. Neste Natal lembrem-se que o Papai Noel é só vermelho por causa da Coca-Cola, e que isto são basicamente umas férias para sustentar comércios e materialidades. Neste Natal lembrem-se de quem amam, estejam gratos por estarem juntos (se estiverem) mas percebam, de uma vez por todas, que não é pela merda do bacalhau e do bolo-rei que a gente se junta – e que, se for, alguma coisa está profundamente errada.

Feliz Natal, ou o que preferirem. Longe de mim querer mal a alguém.


Ho Ho “Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
The world is holy! The soul is holy! The skin is holy! The nose is holy! The tongue and cock and hand and asshole holy!
Everything is holy! everybody’s holy! everywhere is holy! everyday is in eternity! Everyman’s an angel!
The bum’s as holy as the seraphim! the madman is holy as you my soul are holy!
The typewriter is holy the poem is holy the voice is holy the hearers are holy the ecstasy is holy!
Holy Peter holy Allen holy Solomon holy Lucien holy Kerouac holy Huncke holy Burroughs holy Cassady holy the unknown buggered and suffering beggars holy the hideous human angels!
Holy my mother in the insane asylum! Holy the cocks of the grandfathers of Kansas!
Holy the groaning saxophone! Holy the bop apocalypse! Holy the jazzbands marijuana hipsters peace peyote pipes & drums!
Holy the solitudes of skyscrapers and pavements! Holy the cafeterias filled with the millions! Holy the mysterious rivers of tears under the streets!
Holy the lone juggernaut! Holy the vast lamb of the middleclass! Holy the crazy shepherds of rebellion! Who digs Los Angeles IS Los Angeles!
Holy New York Holy San Francisco Holy Peoria & Seattle Holy Paris Holy Tangiers Holy Moscow Holy Istanbul!
Holy time in eternity holy eternity in time holy the clocks in space holy the fourth dimension holy the fifth International holy the Angel in Moloch!
Holy the sea holy the desert holy the railroad holy the locomotive holy the visions holy the hallucinations holy the miracles holy the eyeball holy the abyss!
Holy forgiveness! mercy! charity! faith! Holy! Ours! bodies! suffering! magnanimity!
Holy the supernatural extra brilliant intelligent kindness of the soul!”
Footnote to Howl, Allen Ginsberg
Berkeley, 1955
Há coisas que foram ditas/escritas e que servem de consolo em certas ocasiões, quando deviam servir de lição para o resto do nosso tempo.

sair da vista ou da presença

se alguém roubar a morte
por qualquer razão que seja
que se esqueça de passar cá por casa
eu não saberia o que fazer
com a vida eterna

talvez fosse forçado
a contar escadarias para passar o tempo
mesmo nunca tendo tido interesse
em coisas que me levem
ao mesmo lugar de sempre

se alguém roubar a morte
por qualquer razão que seja
que pergunte primeiro se tem mal
levar aquilo por que se espera
pacientemente
desde o ventre

há quem goste do silêncio
mas que nunca o tenha
verdadeiramente
conhecido

(é engraçado como
com o passar dos dias
desaparecer
passa de medo
a poema)

diário #6

Dei por mim a ponderar sobre uma coisa que o meu pai diz muitas vezes. “É melhor do que um chuto no cú“. O paradigma, neste caso, estabelece que quase tudo é melhor do que um chuto no cú, o que não está totalmente mal, mas acho que há coisas piores para chutar. “É melhor do que um chuto na pureza” foi o que de melhor consegui. É que quando levas um chuto no cú a dor acaba por desaparecer, mas quando, inevitavelmente, levas um pontapé em cheio na pureza, não voltas atrás. Vou começar a usar a frase.

As minhas irmãs fazem anos amanhã. As minhas irmãs deviam ter estátuas à porta do mundo, porque são seres com uma paciência inabalável para levar com as minhas merdas. As minhas irmãs também lêem muitos livros e ouvem muitas músicas, e são mais inteligentes que eu. Se não fossem as minhas irmãs eu, provavelmente, usava chapéus virados do avesso, não ia ao cinema, não ouvia música por gosto, lia livros motivacionais escritos por senhores e senhoras que não têm interesse nenhum, achava a arte uma parvoíce, não sabia ser uma pessoa (ou lá o que é isto que eu ando para aqui a fazer) e passaria a ser mais um bonequinho automatizado que procura respostas nos outros.

Há muitos textos sentimentais sobre a beleza das relações entre irmãos; não me dizem nada, porque eles não sabem o que é ter irmãs como as minhas. “Ah, mas isso dizes tu porque são as tuas irmãs e não conheces outras“. Quero lá saber. Sou egoísta a esse ponto.

“Mas porque é que puseste um parágrafo sobre chutos na pureza e no cú, com uma mensagem para as tuas irmãs?”

Porque, nos meus olhos, a elas ninguém lhes pontapeia a pureza. E quem ousar, leva um chuto no cú, porque puros já não são.