estava a ler frank o’hara no café (diário #10)

três rapazes estão sentados à minha esquerda a fumar cigarros. têm muita papelada em cima da mesa. se tivesse de adivinhar diria que estão a estudar para algum tipo de exame, mas eu não tenho de adivinhar porque estou a vê-los. parecem mais preocupados com o que a Margarida disse ao moço do cabelo oleoso do que com o exame.

dois miúdos com coroas e capas passaram a correr. atrás ia uma senhora (mãe de um deles ou dos dois, com certeza) com um ar mais cansado do que o meu.

à minha frente está um casal de idosos a ter conversas distintas um com o outro. a senhora diz que o cabeleireiro abusou – que cortou demasiado cabelo – e que da próxima vai seguir o conselho da vizinha, que vai ao shopping e nunca sai de lá descontente. o senhor continua indignado com o tempo de confecção das torradas. “quinze minutos? é pão com manteiga!” diz ele. não sei o que achar disto.

à direita do casal está um rapaz que se preocupa demasiado com a estética das suas sobrancelhas e uma senhora mais velha e muito bonita. a senhora tem uma camisa branca e calças de ganga, e parece que está a dar explicações de matemática ao rapaz das sobrancelhas. se ela tivesse sido minha professora se calhar gostava mais de matemática e não estava no café a escrever estas merdas.

ao fundo estão outros quatro rapazes. ao bocado falavam do comprimentos dos calções de um deles. ele que use o que quiser mas realmente aquilo são boxers e não vale a pena dizer que não.

a última mesa ocupada alberga uma família. pai, mãe, filha. tratam-se por “você”. acho isso extremamente impessoal e não deve fazer maravilhas para o ambiente familiar. “o pai acha que sou otária?” foi a pergunta que ficou no ar. calaram-se depois e só falaram para o pai pedir a conta. será que tocaram num ponto sensível? tanta classe e tão poucas palavras.

eu estava a tentar ler o livro do Frank O’Hara que comprei na livraria do costume, mas decidi escrever parvoíces sobre as pessoas da esplanada, já que não se calam um bocadinho. se um dia tiver um café vou ter uma sala dedicada a quem quer beber em silêncio.

Advertisements

14/02

acaba por ser um dia como os outros
sou capaz de passar mais tempo no bar
talvez aventurar-me no devil’s cut
ou no grey goose
parceiros que se fazem
nos passeios pela cidade
em dias que não significam nada
mas que me relembram de tudo

talvez tire
finalmente
a tua fotografia da minha carteira
ou se calhar não lhe mexo
que assim compro chocolates a fantasmas

não sei

 

diário #8

O filme The Purge (2013) de James DeMonaco fala-nos de uma sociedade distópica americana onde, durante 12 horas num ano, todo o crime é legal (excepto contra oficiais do governo) e toda a gente pode fazer o que quiser. Porque é que estou a falar deste filme? Porque (nunca generalizando) vejo o Natal mais ou menos da mesma forma: durante um momento no tempo toda a gente é muito simpática, maravilhosa, atenciosa e preocupada com o mundo. Uma “purga” ao contrário, se assim preferirem. Não sou fã do Natal, desculpem, mas é por razões bastante óbvias para mim. Em parte é um exercício ligeiramente hipócrita para algumas pessoas se sentirem bem consigo próprias.

“Mas olha que tu quando eras pequenino até gostavas muito do Natal!”

Quando eu era pequenino também achava que o Jardel era o melhor jogador de futebol de sempre e que o Michael Jackson era literalmente imortal; quer seja pela coca ou pela cova acabei por ser provado errado. Quem diria que o conhecimento e o interesse pelas coisas nos leva a mudar de opinião de vez em quando?

Tanto respeito o Natal que o celebro com a minha família, no entanto não posso deixar de, pela primeira vez, escrever numa página que não preciso que os dias 24 e 25 de dezembro me relembrem de quem amo; desses lembro-me todos os dias. E se é de bom tom oferecer alguma coisa a quem se ama ou gosta nestes particulares dias, também o é no resto deles – caso achem que para demonstrar amor ou afecto seja efectivamente necessário esbanjar caroço, porque no meu entender há coisas mais importantes. Mesmo assim cumpro o protocolo, sabendo que deixa os que amo felizes – pelo menos em parte.

Neste Natal lembrem-se que existe o resto do ano para serem bons para quem acarinham. Neste Natal lembrem-se que se alguém gostar mais de vocês por causa do porta-chaves que lhe compraram, é porque gostam mais das coisas do que da vossa pessoa. Neste Natal lembrem-se que “a purga” é distopia, e nada muda por um dia. Neste Natal lembrem-se que o Papai Noel é só vermelho por causa da Coca-Cola, e que isto são basicamente umas férias para sustentar comércios e materialidades. Neste Natal lembrem-se de quem amam, estejam gratos por estarem juntos (se estiverem) mas percebam, de uma vez por todas, que não é pela merda do bacalhau e do bolo-rei que a gente se junta – e que, se for, alguma coisa está profundamente errada.

Feliz Natal, ou o que preferirem. Longe de mim querer mal a alguém.


Ho Ho “Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy! Holy!
The world is holy! The soul is holy! The skin is holy! The nose is holy! The tongue and cock and hand and asshole holy!
Everything is holy! everybody’s holy! everywhere is holy! everyday is in eternity! Everyman’s an angel!
The bum’s as holy as the seraphim! the madman is holy as you my soul are holy!
The typewriter is holy the poem is holy the voice is holy the hearers are holy the ecstasy is holy!
Holy Peter holy Allen holy Solomon holy Lucien holy Kerouac holy Huncke holy Burroughs holy Cassady holy the unknown buggered and suffering beggars holy the hideous human angels!
Holy my mother in the insane asylum! Holy the cocks of the grandfathers of Kansas!
Holy the groaning saxophone! Holy the bop apocalypse! Holy the jazzbands marijuana hipsters peace peyote pipes & drums!
Holy the solitudes of skyscrapers and pavements! Holy the cafeterias filled with the millions! Holy the mysterious rivers of tears under the streets!
Holy the lone juggernaut! Holy the vast lamb of the middleclass! Holy the crazy shepherds of rebellion! Who digs Los Angeles IS Los Angeles!
Holy New York Holy San Francisco Holy Peoria & Seattle Holy Paris Holy Tangiers Holy Moscow Holy Istanbul!
Holy time in eternity holy eternity in time holy the clocks in space holy the fourth dimension holy the fifth International holy the Angel in Moloch!
Holy the sea holy the desert holy the railroad holy the locomotive holy the visions holy the hallucinations holy the miracles holy the eyeball holy the abyss!
Holy forgiveness! mercy! charity! faith! Holy! Ours! bodies! suffering! magnanimity!
Holy the supernatural extra brilliant intelligent kindness of the soul!”
Footnote to Howl, Allen Ginsberg
Berkeley, 1955
Há coisas que foram ditas/escritas e que servem de consolo em certas ocasiões, quando deviam servir de lição para o resto do nosso tempo.

sair da vista ou da presença

se alguém roubar a morte
por qualquer razão que seja
que se esqueça de passar cá por casa
eu não saberia o que fazer
com a vida eterna

talvez fosse forçado
a contar escadarias para passar o tempo
mesmo nunca tendo tido interesse
em coisas que me levem
ao mesmo lugar de sempre

se alguém roubar a morte
por qualquer razão que seja
que pergunte primeiro se tem mal
levar aquilo por que se espera
pacientemente
desde o ventre

há quem goste do silêncio
mas que nunca o tenha
verdadeiramente
conhecido

(é engraçado como
com o passar dos dias
desaparecer
passa de medo
a poema)

diário #6

Dei por mim a ponderar sobre uma coisa que o meu pai diz muitas vezes. “É melhor do que um chuto no cú“. O paradigma, neste caso, estabelece que quase tudo é melhor do que um chuto no cú, o que não está totalmente mal, mas acho que há coisas piores para chutar. “É melhor do que um chuto na pureza” foi o que de melhor consegui. É que quando levas um chuto no cú a dor acaba por desaparecer, mas quando, inevitavelmente, levas um pontapé em cheio na pureza, não voltas atrás. Vou começar a usar a frase.

As minhas irmãs fazem anos amanhã. As minhas irmãs deviam ter estátuas à porta do mundo, porque são seres com uma paciência inabalável para levar com as minhas merdas. As minhas irmãs também lêem muitos livros e ouvem muitas músicas, e são mais inteligentes que eu. Se não fossem as minhas irmãs eu, provavelmente, usava chapéus virados do avesso, não ia ao cinema, não ouvia música por gosto, lia livros motivacionais escritos por senhores e senhoras que não têm interesse nenhum, achava a arte uma parvoíce, não sabia ser uma pessoa (ou lá o que é isto que eu ando para aqui a fazer) e passaria a ser mais um bonequinho automatizado que procura respostas nos outros.

Há muitos textos sentimentais sobre a beleza das relações entre irmãos; não me dizem nada, porque eles não sabem o que é ter irmãs como as minhas. “Ah, mas isso dizes tu porque são as tuas irmãs e não conheces outras“. Quero lá saber. Sou egoísta a esse ponto.

“Mas porque é que puseste um parágrafo sobre chutos na pureza e no cú, com uma mensagem para as tuas irmãs?”

Porque, nos meus olhos, a elas ninguém lhes pontapeia a pureza. E quem ousar, leva um chuto no cú, porque puros já não são.

true blue

true blue
lurks in the corners
when the boys get together to drink
and waits
patiently
for the lonesome moment of departure
to wrap his filthy hands around any of them

true blue
with the yellow eyes
anxiously knocks on her bedroom door
wants to tell her the truth
about living alone

true blue
the sadist
that hides in the bushes
waiting for boys and girls to grow up
masturbating to the sound of lost innocence
contemplating the grey pubes of lady Marcy
that used to be happy
fornicating the men and women
that learn from exaggerated stories
what they should’ve learned by themselves
or mom and dad
or teacher
devil and god
equally inexistant within the terms of current logic

true blue
the annihilator
true blue
the wise
true blue
the ridiculous truth of our sexual encounters
true blue
the cabin in which I long to rest my bones
true blue
the bipolar
true blue
the dominatrix of our once pure hearts
true blue
true you
blue you
true blue
the tears that travel from eyes to feet
every night I sleep by my lonesome

whenever I try to lose you
true blue
you find a way to slither back inside
forcing me to contemplate sadness
in the most peculiar way

whenever I stroll down the avenues at night
hoping for the difference sunlight brings
I end up chained to a bar stool with you
true blue
pissing red and green away
making solitude the only love story I find comfort on

and if you are the one I should marry
let’s get on with it
so I can stop having wet lucid dreams
about colors that don’t exist
anymore

diário #5

Quando não me sinto bem fico em casa. O problema de ficar em casa quando não me sinto bem é que, com o tempo que tenho para pensar e escrever, acabo por ficar pior da cabeça, mesmo que fique melhor do corpo. De um momento para o outro todo o carro que passa na rua é uma flecha a trespassar-me o ouvido, todo o toque do sapato no andar de cima é um sem-fim de alarmes colados à testa, todo o pedido é demais. Não é como se pudesse evitar; sei lá como é que isto se processa. Por isso é que a merda da cabana não me sai da cabeça.

“Ah mas estás a dizer isso porque não sabes o que é realmente viver sozinho”, “isso é só picuisse”, “não sabes do que falas”.

Sim, porque eu sou o primeiro a não querer viver rodeado de mentiras e caos. Deixem-se é de paternalismos. É tudo muito lindo, se é isso que querem ouvir, mas deixem-me em paz. A realidade é que eu gosto muito de muita gente, e muita coisa; mas também gosto bastante do meu sossego e do meu silêncio. Acima de tudo adoro a minha sanidade, que se vai deteriorando com este barulho todo.

Ontem revi o Howl com o James Franco. Acho que ele faz um papel do caraças, e que a temática é extremamente importante. O Ginsberg não era só um boémio, homossexual e um drogado, como pinta a mente pequena; era e é um marco da luta pela liberdade de expressão e pela validação artística fora dos cânones, no campo da literatura. Se calhar está na altura de algumas pessoas lerem um bocado sobre a beat generation (que não existe) e perceberem que a mensagem de nada tem a ver com algumas atitudes pelas quais ficaram conhecidos. Eu gostava de ter metade dos tomates desses degenerados. Se calhar era mais feliz.

Acho que hoje estou numa de ver um filme parvo. Do género das Tartarugas Ninja ou assim. E beber chá; estou numa de beber chá. Provavelmente de gengibre, para ver se me passa esta dor de garganta. Não que ande a fazer nada de inapropriado com a garganta, para além de falar quando devia estar calado.

mel e jasmim

do cume
desta montanha
onde me sento
sobre detritos dos dias
vê-se o mar
emancipado do mundo
onde só há silêncio e tempo
para corrigir a posição das mãos
que ora te agarram
ora me mastigam o sexo

com toda a franqueza
preferia não ter
de me tentar satisfazer
mas as minhas mãos
não se corrigem
por isso de nada me vale
alcançar o mar

caso um dia decidas
que o tremer do meu corpo
não te aflige
procura o trono de lixo
que fiz para me distanciar de ti

não prometo
que esta torre
pare de crescer
mas ainda tenho
por aqui
umas velinhas
com cheiro a mel e jasmim
que perfumam
até o mais vil dos homens

café

no café
a gente estranha
quem se senta sozinho
como se de um bicho se tratasse
como se houvesse grades
que separam a máscara
da nudez
como se a solidão
fosse doença rara
que faz cair a genitália
numa banheira de tristezas

há quem não tenha paciência
para ir ao armário
escolher uma cara nova
todo o dia
todos os dias
para sempre

há quem vá
ao café
pelo café
e nada mais

a canção das miúdas

As miúdas lá do bairro
Dizem que eu sou mau companheiro
Mas não percebem que o coração
Bate melhor quando está por inteiro

As miúdas fumam no jardim
E eu nem sequer lhes digo nada
Não entendem que não é por mim
Que se apaga a morte na calçada

As miúdas lá do bairro
Querem de mim o que eu não sou
Querem que saiba por onde ir
Sem querer saber para onde vou