à saída do fojo

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para a colina
cheiro a mar
e o som dos pássaros
que se movem ininterruptamente
pelo céu

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para as árvores
cheiro a tabaco
e o som das cadeiras
que rangem incessantemente
no pátio

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para os lençóis
cheiro a limão e gasolina
e o som das gotas
que caem intermitentemente
do lado de lá do quarto

uma tangerina
e uns quantos cafés
vista para nada
cheiro a nada
e nenhum som
a ecoar nos azulejos
da casa que alberga
a liberdade e a calma

true blue

true blue
lurks in the corners
when the boys get together to drink
and waits
patiently
for the lonesome moment of departure
to wrap his filthy hands around any of them

true blue
with the yellow eyes
anxiously knocks on her bedroom door
wants to tell her the truth
about living alone

true blue
the sadist
that hides in the bushes
waiting for boys and girls to grow up
masturbating to the sound of lost innocence
contemplating the grey pubes of lady Marcy
that used to be happy
fornicating the men and women
that learn from exaggerated stories
what they should’ve learned by themselves
or mom and dad
or teacher
devil and god
equally inexistant within the terms of current logic

true blue
the annihilator
true blue
the wise
true blue
the ridiculous truth of our sexual encounters
true blue
the cabin in which I long to rest my bones
true blue
the bipolar
true blue
the dominatrix of our once pure hearts
true blue
true you
blue you
true blue
the tears that travel from eyes to feet
every night I sleep by my lonesome

whenever I try to lose you
true blue
you find a way to slither back inside
forcing me to contemplate sadness
in the most peculiar way

whenever I stroll down the avenues at night
hoping for the difference sunlight brings
I end up chained to a bar stool with you
true blue
pissing red and green away
making solitude the only love story I find comfort on

and if you are the one I should marry
let’s get on with it
so I can stop having wet lucid dreams
about colors that don’t exist
anymore

diário #5

Quando não me sinto bem fico em casa. O problema de ficar em casa quando não me sinto bem é que, com o tempo que tenho para pensar e escrever, acabo por ficar pior da cabeça, mesmo que fique melhor do corpo. De um momento para o outro todo o carro que passa na rua é uma flecha a trespassar-me o ouvido, todo o toque do sapato no andar de cima é um sem-fim de alarmes colados à testa, todo o pedido é demais. Não é como se pudesse evitar; sei lá como é que isto se processa. Por isso é que a merda da cabana não me sai da cabeça.

“Ah mas estás a dizer isso porque não sabes o que é realmente viver sozinho”, “isso é só picuisse”, “não sabes do que falas”.

Sim, porque eu sou o primeiro a não querer viver rodeado de mentiras e caos. Deixem-se é de paternalismos. É tudo muito lindo, se é isso que querem ouvir, mas deixem-me em paz. A realidade é que eu gosto muito de muita gente, e muita coisa; mas também gosto bastante do meu sossego e do meu silêncio. Acima de tudo adoro a minha sanidade, que se vai deteriorando com este barulho todo.

Ontem revi o Howl com o James Franco. Acho que ele faz um papel do caraças, e que a temática é extremamente importante. O Ginsberg não era só um boémio, homossexual e um drogado, como pinta a mente pequena; era e é um marco da luta pela liberdade de expressão e pela validação artística fora dos cânones, no campo da literatura. Se calhar está na altura de algumas pessoas lerem um bocado sobre a beat generation (que não existe) e perceberem que a mensagem de nada tem a ver com algumas atitudes pelas quais ficaram conhecidos. Eu gostava de ter metade dos tomates desses degenerados. Se calhar era mais feliz.

Acho que hoje estou numa de ver um filme parvo. Do género das Tartarugas Ninja ou assim. E beber chá; estou numa de beber chá. Provavelmente de gengibre, para ver se me passa esta dor de garganta. Não que ande a fazer nada de inapropriado com a garganta, para além de falar quando devia estar calado.

mel e jasmim

do cume
desta montanha
onde me sento
sobre detritos dos dias
vê-se o mar
emancipado do mundo
onde só há silêncio e tempo
para corrigir a posição das mãos
que ora te agarram
ora me mastigam o sexo

com toda a franqueza
preferia não ter
de me tentar satisfazer
mas as minhas mãos
não se corrigem
por isso de nada me vale
alcançar o mar

caso um dia decidas
que o tremer do meu corpo
não te aflige
procura o trono de lixo
que fiz para me distanciar de ti

não prometo
que esta torre
pare de crescer
mas ainda tenho
por aqui
umas velinhas
com cheiro a mel e jasmim
que perfumam
até o mais vil dos homens

café

no café
a gente estranha
quem se senta sozinho
como se de um bicho se tratasse
como se houvesse grades
que separam a máscara
da nudez
como se a solidão
fosse doença rara
que faz cair a genitália
numa banheira de tristezas

há quem não tenha paciência
para ir ao armário
escolher uma cara nova
todo o dia
todos os dias
para sempre

há quem vá
ao café
pelo café
e nada mais

a canção das miúdas

As miúdas lá do bairro
Dizem que eu sou mau companheiro
Mas não percebem que o coração
Bate melhor quando está por inteiro

As miúdas fumam no jardim
E eu nem sequer lhes digo nada
Não entendem que não é por mim
Que se apaga a morte na calçada

As miúdas lá do bairro
Querem de mim o que eu não sou
Querem que saiba por onde ir
Sem querer saber para onde vou

cadernos antigos

andei a passear pelos meus cadernos antigos e apercebi-me que eu era um menino bastante teatral; carregado de dúvidas e incertezas sobre a continuidade das coisas. apoiado no exagero emocional para procurar respostas às minhas perguntas.

ainda bem que cresci e evolui para um homem apático, depressivo, idiota, sem paciência e bastante teatral.

morra o turvo, morra! pim!

sal

parti para são bento.
fui ter contigo sem te ter ao lado,
e escrevi-te na gravilha.
era o mais próximo da insanidade
que podia estar.
aí e nas vezes que me lembrei
dos nomes que dei às lágrimas
quando mas trouxeste.

se o rio fosse whisky,
juntava-lhe umas pedras de gelo
e afogava-me na lembrança de quem fui.
era tão bonito,
e agora não passo disto:
um vulto que se lembra de nomes com sabor a sal.