deitar o lixo fora

Saí de casa com aquela camisola preta e amarela que dizes ser de mau gosto, os calções demasiado pequenos (aqueles pretos também), as sapatilhas confortáveis e quatro sacos do lixo. Não usei nada por baixo dos calções porque era só para ir ao contentor e voltar, e porque os calções são tão pequenos que por vezes parecem boxers.

Ao deitar o lixo fora, enquanto o frio me levantava os pêlos das pernas, quis correr. Nem precisava de ir buscar o que fosse; queria correr até à tua rua para que viesses comigo e depois corríamos os dois numa direcção qualquer até não haver mais ar para respirar. O que acontecia depois ficaria ao nosso critério, mas eu continuaria a correr para nenhures até me perder e aí recomeçar.
Talvez aí, em lugar algum, pudéssemos reinventar a vontade de beber água e comer legumes. Talvez pudéssemos reinventar a ideia de casa.

Mas não corri. Ficou-me apenas a imagem de um acometimento desenfreado pelas ruas, pelos campos, pelas praias, pelos montes.

Aparentemente não deitei o lixo fora:

Levei-o a sair de casa.

bougainvillea

1.

Lembro-me de cruzar as pernas naquele bloco de pedra que nunca entendi, no telhado da lavandaria da minha casa de infância. Passava algum tempo a olhar para a buganvília que a minha mãe gabava e a pensar se, um dia, uma mulher iria trepar por mim acima; não da forma porca, mas da forma bela de quem agarra a vida pelas orelhas e lhe encosta a face para um beijo longo.

As buganvílias morrem se não tiverem água e eu sempre achei que teria toda a água do mundo quando fosse a minha vez.

2.

estava focado
nos autocarros
a passar no fundo da praça
quando verti umas quantas lágrimas

a sidra tinha demasiado gás
e eu continuo
com saudades tuas
mesmo tendo estado contigo
hoje de manhã

Escandinávia e as cartas

1.

Nunca fui à Escandinávia, mas parece-me um sítio que me preencheria as medidas.

Gostava, porém, de não me sentir assim em relação à Escandinávia. Gostava de ter a certeza que nunca veria os fiordes, a pequena sereia e as estátuas de Freyja e Thor.

Assim, Águas Santas continuaria a ser o sonho de uma vida, e não perderia tempo a pensar sobre sítios longínquos.

2.

Se pudesse não falava: escreveria cartas à mão.

É que quando escrevemos uma carta com a nossa própria letra, sangue e suor, pensamos em tudo o que queremos dizer e utilizamos o tempo para passar isso para um papel bonito, com a dedicação de quem quer comunicar com alguém genuinamente; já falar requer um imediatismo que não corre sempre bem para quem tem três toneladas de emoções a fluir pela garganta (já para não falar das mensagens, que sofrem de um imediatismo ainda pior, para mim – um mais impessoal e impaciente). Quero que as minhas emoções se organizem. Que façam uma filinha pirilau, saiam direitinhas da minha mão e terminem com uma despedida cordial.

Digníssimos,

Quero apenas dizer o que sinto, mas levo tempo a enxotar as moscas e os demónios da minha cabeça.

Escrever é mais fácil para mim.

Cordialmente,
Sérgio Morais 

apontamentos 14/1/20

1.

Andei a passear dois hambúrgueres na minha mochila, que lá se encontravam para me matar a fome caso aparecesse. Se tivessem olhos de certo perderiam o apetite ao ver as paisagens do lado de lá da janela do comboio, como eu vi.

Por isso é que não comi:
Deixei-me levar pelas árvores.

2.

Gosto de pensar que não passo de um miúdo parvo que olha para laranjas com uma certa dedicação. A mesma que o Homem usa para olhar para tabelas com números ou códigos num ecrã porreiro.

A dedicação que me permite olhar para uma laranja e ver o mundo todo, uma lua distante ou os tomates de um gigante.

3.

a vida num círculo
voltar à rotina
para que não me esqueça de
voltar à rotina
a vida num círculo

pisar o caminho
como se fosse novo
sem ver o lixo
como se fosse novo
pisar o caminho

andar às voltinhas
para sempre
andar às voltinhas

apontamentos 7/1/20

1.

Olhar para dentro é de evitar, ou assim me mostram alguns falantes.

Evitar olhar para dentro, mas dizer que se mora lá há muitos anos, muitas vezes.

2.

Acho alguns risos risíveis. Aqueles risos redondos e farfalhudos, como os dos magnatas nos filmes, por exemplo.

Acho, também, alguns choros risíveis. Aqueles que ensinam uma lição a quem pensa ser maior que o mundo, como os dos magnatas nos filmes, por exemplo.

3.

O Orwell dizia que os escritores são seres egocêntricos, que fazem o que fazem para tentar provar alguma coisa a si próprios (entre outras razões) e que negá-lo é estapafúrdio.

Concordo. No final de contas, escrevo para provar a mim mesmo que consigo pagar uma laranjada e uma torrada em pão saloio com meia dúzia de poemas.

apontamentos 1/1/20

1.

Na primeira noite do ano não passava um carro pela avenida. São estas noites sossegadas que me relembram que há luzes que ainda amo na cidade.

2.

Estava sentado na esplanada de um café e uma mulher, do outro lado da estrada, olhava para uma porta com uma dedicação imensa. Não consegui perceber se viu o passado naquela entrada ou se, de alguma forma, naquele momento o tempo não importasse: como se fosse o derradeiro presente.

De qualquer das formas é triste que uma porta faça alguém passar por tamanha quietude.

3.

aprender

a saltar à corda

não às conclusões

apontamentos 27/12/19

1.

Por ouvir a gente a falar às vezes pensamos não ser possível viver sem certas coisas: um carro, o telemóvel ou equipamentos do género.

Acho piada por perceber que a electrónica tomou o lugar do amor.

2.

Matei uma formiga com a minha caneta e prometo que  foi sem querer. Prometo porque já matei outras de propósito e sei qual é a sensação, mas com este assassinato não contava.

Doeu um pouco matar a vida com algo que gosto, no entanto até faz sentido.

3.

Tinha escrito “puta que te pariu” numa folha do meu caderno e não sabia porquê, mas hoje fui mordido por um mosquito e andei quarenta e cinto minutos à procura do sacana, o que me fez lembrar (no fim da busca) que aquela é a minha frase de desistência e que os mosquitos me pioram as insónias.

rua torta

na minha rua
o passeio
sempre esteve torto

os vizinhos preocupam-se
com a colocação da anca
e com a posição dos tornozelos
dizem que a rua torta
afeta o perfeito caminhar sobre o tempo

mas acho que quem a fez sabe disso
e que há calceteiros
que percebem melhor os dias
do que quem se limita a andar sobre eles

no final de contas
há que pensar sobre o que se pisa
mesmo que não se saiba
por onde se vai

diário #11

Hoje conversei (como qualquer bom amante) sobre trânsito intestinal, rabos e chambão de borrego. Este último chamou-me a atenção porque, como tenho estado com o tempo demasiado ocupado a fazer flores em cafés, as minhas ideias acabam por ser osso com pouca carne – como o chambão de um borrego.

“Que achas deste início que me deste?” perguntei.

Ela achou curioso mas eu achei uma bela porcaria. Não que essas três temáticas não sejam boas ou importantes, mas tenho andado com uma predisposição parva para não gostar de nada que me saia das mãos, a não ser que seja alguma bebida com bourbon, enfiada num shaker qualquer e enfeitado como os ramos que se dá à madrinha uma vez por ano.

Fiquei parado na ideia de dar um início a alguém. Não apenas na perspectiva de ajudar alguém a começar um texto desnecessário às onze e cinquenta e oito da noite; dar um início como quem cura feridas e quase que dá um corpo novo ao moribundo. Torna a pergunta bem mais interessante.

“Que achas deste início que me deste?”

É que eu não estava à espera, mas fico-te eternamente grato.

o pequeno conto do nu

Comecei por andar nu, como todos andamos a certo ponto. Apercebi-me, ainda em tenra idade, de que o resto do mundo usava roupas e achei por bem vestir-me também; mas sentia falta da aragem no umbigo, das gotas de chuva nos mamilos, do toque da pedra no pé, do frio nos tomates, e dei por mim despido outra vez.

No outro dia queimei a pila e não me importei, porém ando preocupado porque soube da existência de camisas que protegem o coração em caso de incêndio: uma preocupação explicável para quem sabe que sorri com o calor no peito, mas que não pára de brincar com o fogo quando é hora.