praga

Praga fez sentido na altura de fugir
titubeante
do som da tua voz
como faz a quem ergue catedrais em nome de Venceslau
para não se perguntar mais
sobre o que é morrer

recordo-me da leveza com que habitavam
certas gentes
no interior das imponentes naves dessas construções
tão etéreas elas
quanto eu
por razões distintas

que a distância permite-me respirar fundo
e sucumbir aos pés dos dias
com vontade de os perceber
enquanto que saber-se distante das resoluções
tende a dar comichão a meio mundo

se houve um dia em que respostas simples
para a imutabilidade do fim da vida
me irritassem a pele dos tomates
agora quase que invejo
ter a capacidade para parar de ponderar
durante um minuto
e simplesmente crer

não evito a ideia de que voltarei à não existência
da qual não me lembro
mas Praga volta a fazer sentido
como terá sempre lógica para quem pede a São Vito
que não deixe de estar aqui
ou que se deixar
que parta para um sítio bonito

partilharemos sempre uma cidade
uma morte
e no final
um de nós terá razão

até lá
fujo do som da tua voz

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